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sábado, 30 de abril de 2011

Um país de botânicos - continuação


Pé de anis florido. Foto: Wikimedia.




Num post anterior, "Um país de botânicos", citei alguns exemplos de equívoco entre nomes de plantas, como a erva doce, a unha de gato e o hibisco. Portanto, ao indicar plantas medicinais, trocar o nome pode ser perigoso.
As palavras – incluindo os nomes das coisas - migram junto com as pessoas. Porém nem sempre o sentido original permanece o mesmo. Um exemplo: os imigrantes italianos que vieram para o Brasil conheciam uma planta medicinal, chamada Arnica, muito comum nas montanhas do Velho Continente. Essa planta, que os botânicos chamam de Arnica montana L., era usada desde tempos imemoriais para o tratamento de hematomas, distúrbios musculares, entre outros. Só que ela não existia no Brasil. Aqui chegando, esses imigrantes encontraram outra planta muito parecida que era usada pelos brasileiros com a mesma indicação. O que aconteceu? O nome Arnica foi “emprestado” a essa outra planta, que pertence ao gênero botânico Lychnophora e à mesma família da primeira, as Compostas. O nome Arnica também foi emprestado a outra espécie da mesma família, a Solidago microglossa, entre outras espécies nacionais.
O mesmo aconteceu com o nome erva-doce, que dá nome a duas espécies diferentes da mesma família: Pimpinella anisum (anis) e Foeniculum vulgare (funcho). Por ter cheiro semelhante, o nome “anis” foi emprestado ao anis-estrelado (Illicium verum, Illicium anisatum) que é de outra família botânica. (Caro leitor: desculpe se uso muito esse exemplo da erva-doce, mas é que ele é muito típico...).

O nome popular é baseado nas impressões sensoriais: o aspecto visual, o formato das folhas, flores, frutos; a textura; o cheiro, sabor, acidez... Os nomes das plantas vinham dessas características. Assim, “arnica” vem do grego e significa “pele de cordeiro” (por causa da textura da sua folha). Também podiam ser associadas a nomes de lugares. Da localidade germânica “Mattium”, que era uma colônia romana, veio o nome “matiana”, que resultou em “maçã”. Com as navegações e descobrimentos, o número de plantas crescia assustadoramente, e o nome popular com base na aparência já não era mais suficiente para evitar confusões.



No século XVIII, o botânico sueco Linnaeus (para nós, Lineu) criou um sistema eficaz de classificação dos seres vivos. Ele se norteou por detalhes mais sutis, muitos dos quais passam despercebidos pela maioria das pessoas. Quantas pétalas tem a flor? Qual a posição da pétala em relação ao cálice? A semente fica dentro ou fora da fruta? Quantas nervuras tem a folha? A partir daí ele começou a agrupar as plantas em gêneros e famílias botânicas. Importante: nem sempre plantas da mesma família têm o mesmo aspecto visual. Por exemplo: a grama e o bambu são da família das Gramíneas, porém uma tem alguns centímetros enquanto a outra tem vários metros de altura.
Em textos botânicos "de verdade", como artigos de revistas científicas, a nomenclatura das plantas segue uma ordem rígida para evitar confusão. Além do nome, é preciso especificar o nome do autor - através de iniciais. Assim, o correto seria: Arnica montana L., onde L indica Lineu, o autor que deu esse nome. Centella asiatica (L.) Urban significa que esse tal de Urban revisou o nome dado por Lineu e propôs um nome mais atual; por isso o L está entre parênteses.
Nota: atualmente, os botânicos já consideram o sistema de Lineu desatualizado, principalmente devido à evolução da genética que possibilitou a identificação das plantas com mais precisão. Os nomes das famílias já mudaram (por exemplo, a família Gramíneas citada acima virou Poaceae). Novos sistemas de classificação estão sendo propostos. Mas, calma: neste blog, tentarei usar o nome mais familiar possível para poupar o leitor.

quarta-feira, 27 de abril de 2011

Um país de botânicos

Dizem que o Brasil é um país de médicos. Todo brasileiro tem o tratamento certo para aquela doença "cabeluda", uma dieta milagrosa, uma dica de saúde, etc. para compartilhar com os amigos.
E mais ainda: somos um país de botânicos. Sim! Acho que em nenhum outro país do mundo as pessoas conseguem identificar uma planta assim à primeira vista. Basta ir a um jardim e logo as pessoas fazem questão de mostrar seu conhecimento.
E de plantas medicinais então? Basta sair a manchete “Chá de hibisco emagrece”, e pronto: lá vão as pessoas pegar flor do hibisco de jardim pra fazer chá. Afinal “é a mesma planta”, certo?. Unha de gato pra reumatismo? “Tem no muro lá de casa, depois te arrumo uma muda!” Anis estrelado? “É caro! Usa erva-doce que é a mesma coisa”.


Anis (Pimpinella anisum). Foto: Wikimedia


Nada contra essa boa vontade em ajudar o próximo, típica do brasileiro. Certa vez, numa competição de escalada no Himalaia, a equipe portuguesa se acidentou e caiu na neve. Todas as equipes viram e passaram direto. Exceto a equipe brasileira. Perderam a corrida, mas não conseguiram passar pelo acidente sem ajudar as vítimas. Em momentos como esse, de vida ou morte, a ação é mais importante do que o conhecimento.
Mas, ao indicar plantas medicinais de forma equivocada, será que estamos mesmo ajudando? Será que é assim tão simples dar nome aos bois (quero dizer, às plantas)?
Depende. Numa comunidade pequena, onde todo mundo conhece a planta pelo mesmo nome por várias gerações, pode ser. Num passado muito distante, era assim. Ainda é assim nas aldeias indígenas, nos remanescentes de quilombos, nas vilas caiçaras. Mas a partir do momento que o ser humano saiu da sua “aldeia” para visitar os vizinhos e trocar mercadorias, aí começou a confusão. Ou melhor, a globalização.
As palavras – incluindo os nomes das coisas - migram junto com as pessoas. Porém nem sempre o sentido original permanece o mesmo. E aí, com frequência surgem alguns equívocos, como os citados acima. Unha de gato de jardim x unha de gato amazônica; hibisco de jardim x Hibiscus sabdariffa (roselle, ou vinagreira); anis-estrelado x anis, etc.


Hibiscus sabdariffa. Foto: Wikimedia.

Por isso, antes de indicar plantas medicinais para conhecidos, procure estudar melhor o assunto. Se você tem conhecimento, não deixe de compartilhar. Mas se você não sabe, não tenha vergonha de assumir que não sabe e diga que vai pesquisar. Todos saem ganhando.

domingo, 10 de abril de 2011

Alho tem atividade semelhante a antibiótico

Pesquisa da FOP (Faculdade de Odontologia de Piracicaba, da UNICAMP) demonstra que o alho tem ação antimicrobiana.


Foto: Antoninho Perri/Ascom/Unicamp



O alho é um dos condimentos mais antigos. Estima-se que já era utilizado há seis mil anos.
O professor de química do Cotil (Colégio Técnico de Campinas), da Unicamp, Paulo César Venancio, demonstrou através de testes em ratos que o alho tem ação antimicrobiana semelhante à amoxicilina.
O trabalho teve orientãção do professor Francisco Carlos Groppo, também da Unicamp.
A motivação do professor era encontrar uma planta eficaz contra infecções, especialmente Staplylococcus aureus, uma das maiores responsáveis pelas infecções hospitalares. Outro fato que o incentivou foi a relação de plantas medicinais lançada pela ANVISA em 2010, na qual o alho consta como antisséptico, com base na literatura.



Alho (Allium sativum) à venda num mercado na Itália. Foto: Ian Britton. Freefoto.com


A pesquisa incluiu testes in vivo (em ratos) e in vitro, utilizando diversos tipos de extrato de alho.
A análise dos extratos através de cromatografia gasosa revelou que a ação antimicrobiana é responsável por compostos orgânicos e organossulfurados derivados da alicina.
Além do conhecido Allium sativum, o prof. Paulo Cesar Venancio incluiu na pesquisa o Allium tuberosum, planta do mesmo gênero utilizada na culinária japonesa. A ação biológica do alho japonês ou nirá ainda é muito pouco conhecida. Porém, quanto à atividade antimicrobiana, o alho comum (Allium sativum) demonstrou ser superior.

Convém lembrar que, mesmo sendo de origem natural, o alho não deve ser usado "a torto e a direito" para qualquer infecção. Plantas medicinais usadas indevidamente podem interagir com outros medicamentos. É fundamental o acompanhamento de um profissional de saúde qualificado.


Com informações do site EcoDebate, 04/04/2011, que por sua vez reproduziu reportagem do Jornal da Unicamp, Nº 488.

Para saber mais:

A tese do prof. Paulo Cesar Venancio eá disponível para download na Biblioteca Virtual da Unicamp. Basta se cadastrar e procurar por estes dados de referência:
Paulo Cesar Venancio. Tese de doutorado: “Composição química e atividade antimicrobiana de estratos à base de alho (Allium sativum e Allium tuberosum) sobre a infecção estafilococica”. Autor: Orientador: Francisco Carlos Groppo. Unicamp, Faculdade de Odontologia de Piracicaba.

Sobre possíveis interações medicamentosas decorrentes do uso do alho, veja o artigo "Potenciais interações entre fármacos e produtos à base de valeriana ou alho", de Rodrigo F. Alexandre; Fabíola Bagatini; Cláudia M. O. Simões, publicado na Revista Brasileira de Farmacognosia.

terça-feira, 5 de abril de 2011

IX Semana de Fitoterapia de Campinas

IX Semana de Fitoterapia de Campinas
Prof. Walter Radamés Accorsi

Eu já participei em duas edições: 2007 e 2010, é bem interessante. Vale a pena a visita ao CPQBA, Centro de Pesquisas da Unicamp especializado em plantas medicinais e aromáticas.





Começa no dia 26 e vai até o dia 29 de abril a Semana de Fitoterapia Prof. Walter Radamés Accorsi que este ano será realizada na CATI – Av. Brasil, 2340. O evento tem por objetivo compartilhar saberes sobre o valor medicinal das plantas, por meio de palestras, painéis, visita técnica e mini curso.

O tema desta nona edição é “Planta medicinal: é bom pra quê?” Assim sendo, a programação vai responder a esta pergunta de forma clara, científica, responsável e com a autoridade dos renomados profissionais da área que estarão nos brindando com seus saberes.

A IX Semana de Fitoterapia é uma realização da Prefeitura Municipal de Campinas, e da Coordenadoria de Assistência Técnica Integral – CATI, da Secretaria de Agricultura, Pecuária e Abastecimento do Estado de São Paulo e está aberta à participação gratuita de todos os interessados.

O evento tem como parceiros: a Associação Cornélia Vlieg/Oficina Agrícola, Associação de Agricultura Natural de Campinas e Região – ANC, Associação dos Rotarianos de Campinas – Campos Sales, Botica da Família, o Centro Pluridisciplinar de Pesquisas Químicas, Biológicas e Agrícolas (CPQBA) da Unicamp, o Grupo Saberes à Luz do Sol, a Embrapa – Transferência de Tecnologia e o Serviço de Saúde Dr. Cândido Ferreira.

A programação inclui ainda área de exposição. Estão previstas apresentação artística e atividade corporal durante a semana.

Aproveite esta oportunidade de participar e convide seus amigos.


Serviço - IX Semana Municipal de Fitoterapia. Data: 26 a 29 de abril. Local: CATI, Av. Brasil, 2340 – Chapadão. Inscrições: no local e data do evento. Informações e programação: www.cati.sp.gov.br

segunda-feira, 28 de março de 2011

Erva doce para gripe suína – 2

No post anterior, "Erva doce para gripe suína", levantei a questão da transformação química que ocorre, quando a indústria parte de plantas conhecidas para obter novos compostos que não existiam.
Além disso, tem também a questão da espécie botânica.
Os nomes “anis”, "erva doce", são muito abrangentes; incluem várias espécies de plantas, de várias famílias botânicas, todas com aquele cheiro adocicado característico.


Anis estrelado (do gênero Illicium)
Foto: Wikipedia


Vamos resgatar um pouco da biologia: os seres vivos são agrupados em classes, ordens, etc. até chegar no gênero e espécie. O anis estrelado que é vendido nos supermercados do Brasil é da espécie Illicium anisatum; o outro, que serve de base para o medicamento antiviral, é o Illicium verum. Até aí podemos alegar que são do mesmo gênero botânico, portanto são parentes próximos. Agora, a nossa erva doce, ou anis (Pimpinella anisum) apesar de ter cheiro muito parecido com o anis estrelado, é outra planta. Fisicamente, as duas plantas e as duas famílias são bem diferentes.


(Pimpinella anisum)


Para complicar, a erva doce do mercado é frequentemente adulterada por funcho (Foeniculum vulgare). Essa espécie é mais comum no Brasil, e também tem cheiro típico do anis, só que ligeiramente mais amargo. O aroma do anis é bem doce. Essa adulteração só piora a confusão entre as plantas.

E se houvesse uma planta venenosa conhecida como erva-doce? Poderia matar, não é? Parece absurdo, mas isso acontece. O Brasil é um país de dimensões continentais, do tamanho da Europa. Plantas que têm um nome no Paraná têm outro nome no Mato Grosso, outro em Minas e outro no Piauí. Quer outro exemplo: a unha de gato. A espécie medicinal é Uncaria tomentosa, e é nativa da Amazônia peruana. Só que no Brasil há espécies trepadeiras ornamentais que são conhecidas como unha de gato por causa do formato de suas folhas. Mesmo sendo espécies totalmente diferentes, tem gente por aí fazendo chá da planta ornamental só por causa do mesmo nome popular. Não faltam exemplos, que serão publicados pouco a pouco neste blog.

Erva doce para gripe suína?

Desde meados de 2009, circulam na Internet vários e-mails afirmando que o chá de erva doce ou de anis estrelado é eficaz contra a gripe H1N1.
Segundo esses e-mails, o medicamento (que começa com T e acaba com U) seria “extraído do anis-estrelado”. E o mesmo e-mail afirma categoricamente que, na falta desse medicamento, podemos tomar chá do próprio anis-estrelado. E mais: na falta do anis-estrelado, podemos tomar o chá de erva-doce mesmo!


Anis estrelado (do gênero Illicium). Um ingrediente importante da cozinha chinesa e vietnamita. Foto: Fotopedia

(Quero deixar claro que NÃO tenho nenhuma ligação com o laboratório fabricante do medicamento em questão. Mas essa história serve de gancho para fazer alguns comentários).

É verdade que esse laboratório parte do anis estrelado para produzir o medicamento. Agora, afirmar que um substitui o outro, já é uma longa história. Da planta ao comprimido existe um longo caminho. O comprimido final não tem praticamente nada a ver com a planta de partida. Mas então, pra que serve o extrato do anis-estrelado?
A indústria farmacêutica moderna nasceu com a síntese de substâncias que não existem na natureza. É uma forma de garantir exclusividade, sair na frente dos concorrentes. Em muitos casos, a planta fornece a base, o ponto de partida, para a indústria produzir em laboratório a substância que entra no medicamento final.
Para isso é preciso explicar o que é síntese e transformação química. Dá pra explicar muita coisa de química com exemplos que vêm da cozinha! Se você colocar açúcar na sua xícara de chá, e misturar com a colher, o açúcar se dissolve, mas ele ainda está lá. É possível “resgatar” esse açúcar de alguma forma. Por exemplo, se você aquecer o chá a água vai evaporar e ele vai se concentrar. Agora, se você aquecer numa panela, direto no fogo? Ele vira caramelo e queima. Até muda de cor. Ou seja, você tem ali uma substância nova.
Ou seja, voltando ao medicamento para gripe H1N1, o seu princípio ativo é sintetizado em laboratório, não está presente na planta. Comparando grosseiramente: você colocaria caldo de cana no tanque do seu carro, só porque tem “o mesmo princípio ativo do álcool”? Você dispensaria o seu café solúvel, para tomar chá da folha de café? Afinal, vêm da mesma planta, certo?
E além disso, tem a questão da concentração. Mesmo se a substância ativa do medicamento estivesse na planta, seria em quantidade muito pequena, e teríamos que tomar uns trinta litros do chá por dia.
(Atenção: não estou dizendo que o chá não funciona, nem que o tal medicamento é a única solução; apenas estou dizendo que são coisas totalmente diferentes!)

Além dessa questão da transformação química, tem também a questão da espécie botânica, que de tão complexa merece um novo post.

Graviola para câncer?


Graviola (Annona muricata). Foto: Wikimedia Commons


A graviola é da mesma família botânica da fruta-do-conde e da atemóia. Em São Paulo sempre foi mais comum a fruta-do-conde, que foi introduzida muito antes. Lembro que no sacolão perto de casa, no ABC paulista, os comerciantes só traziam graviola por encomenda. Era tida como fruta “exótica”, só consumida por migrantes saudosos da terra natal.
De uma hora para outra, começou a correr a notícia de que ela era capaz de curar o câncer. A procura aumentou, e em pouco tempo o preço da fruta disparou. Agora vêm os cientistas e dizem que tudo não passa de boato. Qual a explicação para isso? Quem nasceu primeiro, o conhecimento científico ou o popular?
Pessoalmente, não duvido do potencial de nenhuma planta. Mas também não posso estimular o consumo de uma fruta só porque “disseram” que funciona pra isso ou aquilo.
Existe uma ENORME diferença entre o conhecimento popular autêntico, desenvolvido ao longo de séculos, com base na experiência; e a informação superficial que corre de boca em boca que ninguém sabe de onde veio.
Uma coisa é aquela planta que a minha avó usava para tratar indigestão, que a avó da avó da avó dela já usava. Estamos falando de uma planta bem conhecida, que a família sempre tinha no quintal. Trata-se de um conhecimento passado oralmente de uma geração a outra. Isso é um tesouro cultural. Tanto é que a indústria farmacêutica moderna bebe dessa fonte para desenvolver novos medicamentos.
Outra coisa completamente diferente é aquela informação recente, que aparece nos meios de comunicação, cai na boca do povo e vira modismo. Pesquisas com plantas devem sim ser estimuladas. Mas sempre existe o risco de gerar mal-entendidos.
Ao buscar na literatura médica, encontramos algumas substâncias – repito, algumas substâncias – extraídas da graviola que vêm sendo estudadas em centros de pesquisa ao redor do mundo. Vários trabalhos mostram que essas substâncias – chamadas acetogeninas – inibem o crescimento de células tumorais em laboratório. Mas até aí, para afirmar que ela tem esse efeito em seres humanos, é outra coisa. E tem outra: essas substâncias citadas na literatura foram encontradas principalmente nas folhas, no caule e nas sementes. Mas a parte consumida pelas pessoas é a polpa!

Vejamos o uso popular da graviola, segundo um desses vários sites que vendem a fruta em cápsulas:
"Polpa e suco: Vermes e parasitas; febres; estimulante da lactação; diarreia e disenteria. Sementes: parasitas. Folhas e cascas: insônia, nervosismo, pressão alta, espasmos, catarros das mucosas, diabetes, distúrbios digestivos."

E aí? Nenhuma das indicações populares tem qualquer ligação com câncer. Assim, tudo indica que não se trata de um conhecimento popular antigo, mas sim de uma pesquisa científica séria que foi mal-interpretada.
Boatos como esse de que graviola cura câncer não surgem por acaso. Para quem vende a fruta, um argumento desses justifica o aumento de preço. O mesmo vale para a erva doce (veja post “Erva doce para gripe suína?”).

domingo, 27 de março de 2011

Uso terapêutico de especiarias

As especiarias são plantas alimentícias e medicinais ao mesmo tempo. Depende da dose e forma de uso. Exemplos: uma espécie de canela (Cinnamommum cassia) que abaixa a glicemia e está sendo estudada no tratamento de diabetes tipo II; a cúrcuma (Curcuma longa) ou açafrão da terra, que tem potentes propriedades antioxidantes e antinflamatórias; a sálvia, que pelo seu poder antibacteriano entra na composição de desodorantes naturais; e muitos outros exemplos. Especiarias e temperos são “meio” alimentos e “meio” medicamentos.




Veja que interessante: o tipo de canela que citei acima, Cinnamomum cassia, reduziu a glicemia em pacientes diabéticos tipo 2. Isso é uma forte evidência que essa especiaria tem efeito antidiabético (Referência: Crawford, P. Effectiveness of Cinnamon for Lowering Hemoglobin A1C in Patients with Type 2 Diabetes: A Randomized, Controlled Trial. The Journal of the American Board of Family Medicine, Vol. 22, No. 5, pp. 507-512, 2009).

Mas atenção: apenas estou chamando a atenção para o poder terapêutico dos temperos. Seria uma irresponsabilidade abandonar o tratamento convencional da diabete e tomar só chá de canela. Não é assim tão simples, como alguns acreditam.
Uma polêmica muito parecida aconteceu em 2009 com a epidemia da gripe H1N1. Circulou um e-mail afirmando que o chá de erva doce "neutraliza o vírus". Na verdade isso foi um mal-entendido dos grandes, que vou esclarecer aqui em breve.
Voltando à canela: uma monja belga do século XII, Hildegarda von Bingen, que escreveu muito sobre terapias naturais, deixou uma receita de biscoito que leva uma quantidade absurda de canela e noz moscada. Segundo ela, o biscoito alivia a depressão. Também, só o sabor já é capaz de mandar a tristeza embora! Fato é que as especiarias têm, sim, efeito poderoso no organismo, que ainda não é levado tão a sério como deveria.
Outra observação importante: o nome "canela", no Brasil, inclui várias espécies que têm o mesmo aroma característico. A canela do mercado brasileiro é de outra espécie, Cinnamomum zeylanicum. Sem contar que ela é frequentemente adulterada por outras espécies. Não vou publicar aqui a foto pois a identificação não é assim tão simples. Por isso, antes de utilizar qualquer especiaria para fins terapêuticos, tenha certeza da sua origem e qualidade. Consulte um médico ou nutricionista; e não esqueça de adquirir de marcas idôneas, para ter a certeza que você realmente está comprando a planta indicada.
Esse tema do nome das plantas é um assunto muito extenso, que me interessa muito. Aguarde!