sábado, 30 de abril de 2011

Um país de botânicos - continuação


Pé de anis florido. Foto: Wikimedia.




Num post anterior, "Um país de botânicos", citei alguns exemplos de equívoco entre nomes de plantas, como a erva doce, a unha de gato e o hibisco. Portanto, ao indicar plantas medicinais, trocar o nome pode ser perigoso.
As palavras – incluindo os nomes das coisas - migram junto com as pessoas. Porém nem sempre o sentido original permanece o mesmo. Um exemplo: os imigrantes italianos que vieram para o Brasil conheciam uma planta medicinal, chamada Arnica, muito comum nas montanhas do Velho Continente. Essa planta, que os botânicos chamam de Arnica montana L., era usada desde tempos imemoriais para o tratamento de hematomas, distúrbios musculares, entre outros. Só que ela não existia no Brasil. Aqui chegando, esses imigrantes encontraram outra planta muito parecida que era usada pelos brasileiros com a mesma indicação. O que aconteceu? O nome Arnica foi “emprestado” a essa outra planta, que pertence ao gênero botânico Lychnophora e à mesma família da primeira, as Compostas. O nome Arnica também foi emprestado a outra espécie da mesma família, a Solidago microglossa, entre outras espécies nacionais.
O mesmo aconteceu com o nome erva-doce, que dá nome a duas espécies diferentes da mesma família: Pimpinella anisum (anis) e Foeniculum vulgare (funcho). Por ter cheiro semelhante, o nome “anis” foi emprestado ao anis-estrelado (Illicium verum, Illicium anisatum) que é de outra família botânica. (Caro leitor: desculpe se uso muito esse exemplo da erva-doce, mas é que ele é muito típico...).

O nome popular é baseado nas impressões sensoriais: o aspecto visual, o formato das folhas, flores, frutos; a textura; o cheiro, sabor, acidez... Os nomes das plantas vinham dessas características. Assim, “arnica” vem do grego e significa “pele de cordeiro” (por causa da textura da sua folha). Também podiam ser associadas a nomes de lugares. Da localidade germânica “Mattium”, que era uma colônia romana, veio o nome “matiana”, que resultou em “maçã”. Com as navegações e descobrimentos, o número de plantas crescia assustadoramente, e o nome popular com base na aparência já não era mais suficiente para evitar confusões.



No século XVIII, o botânico sueco Linnaeus (para nós, Lineu) criou um sistema eficaz de classificação dos seres vivos. Ele se norteou por detalhes mais sutis, muitos dos quais passam despercebidos pela maioria das pessoas. Quantas pétalas tem a flor? Qual a posição da pétala em relação ao cálice? A semente fica dentro ou fora da fruta? Quantas nervuras tem a folha? A partir daí ele começou a agrupar as plantas em gêneros e famílias botânicas. Importante: nem sempre plantas da mesma família têm o mesmo aspecto visual. Por exemplo: a grama e o bambu são da família das Gramíneas, porém uma tem alguns centímetros enquanto a outra tem vários metros de altura.
Em textos botânicos "de verdade", como artigos de revistas científicas, a nomenclatura das plantas segue uma ordem rígida para evitar confusão. Além do nome, é preciso especificar o nome do autor - através de iniciais. Assim, o correto seria: Arnica montana L., onde L indica Lineu, o autor que deu esse nome. Centella asiatica (L.) Urban significa que esse tal de Urban revisou o nome dado por Lineu e propôs um nome mais atual; por isso o L está entre parênteses.
Nota: atualmente, os botânicos já consideram o sistema de Lineu desatualizado, principalmente devido à evolução da genética que possibilitou a identificação das plantas com mais precisão. Os nomes das famílias já mudaram (por exemplo, a família Gramíneas citada acima virou Poaceae). Novos sistemas de classificação estão sendo propostos. Mas, calma: neste blog, tentarei usar o nome mais familiar possível para poupar o leitor.

quarta-feira, 27 de abril de 2011

Um país de botânicos

Dizem que o Brasil é um país de médicos. Todo brasileiro tem o tratamento certo para aquela doença "cabeluda", uma dieta milagrosa, uma dica de saúde, etc. para compartilhar com os amigos.
E mais ainda: somos um país de botânicos. Sim! Acho que em nenhum outro país do mundo as pessoas conseguem identificar uma planta assim à primeira vista. Basta ir a um jardim e logo as pessoas fazem questão de mostrar seu conhecimento.
E de plantas medicinais então? Basta sair a manchete “Chá de hibisco emagrece”, e pronto: lá vão as pessoas pegar flor do hibisco de jardim pra fazer chá. Afinal “é a mesma planta”, certo?. Unha de gato pra reumatismo? “Tem no muro lá de casa, depois te arrumo uma muda!” Anis estrelado? “É caro! Usa erva-doce que é a mesma coisa”.


Anis (Pimpinella anisum). Foto: Wikimedia


Nada contra essa boa vontade em ajudar o próximo, típica do brasileiro. Certa vez, numa competição de escalada no Himalaia, a equipe portuguesa se acidentou e caiu na neve. Todas as equipes viram e passaram direto. Exceto a equipe brasileira. Perderam a corrida, mas não conseguiram passar pelo acidente sem ajudar as vítimas. Em momentos como esse, de vida ou morte, a ação é mais importante do que o conhecimento.
Mas, ao indicar plantas medicinais de forma equivocada, será que estamos mesmo ajudando? Será que é assim tão simples dar nome aos bois (quero dizer, às plantas)?
Depende. Numa comunidade pequena, onde todo mundo conhece a planta pelo mesmo nome por várias gerações, pode ser. Num passado muito distante, era assim. Ainda é assim nas aldeias indígenas, nos remanescentes de quilombos, nas vilas caiçaras. Mas a partir do momento que o ser humano saiu da sua “aldeia” para visitar os vizinhos e trocar mercadorias, aí começou a confusão. Ou melhor, a globalização.
As palavras – incluindo os nomes das coisas - migram junto com as pessoas. Porém nem sempre o sentido original permanece o mesmo. E aí, com frequência surgem alguns equívocos, como os citados acima. Unha de gato de jardim x unha de gato amazônica; hibisco de jardim x Hibiscus sabdariffa (roselle, ou vinagreira); anis-estrelado x anis, etc.


Hibiscus sabdariffa. Foto: Wikimedia.

Por isso, antes de indicar plantas medicinais para conhecidos, procure estudar melhor o assunto. Se você tem conhecimento, não deixe de compartilhar. Mas se você não sabe, não tenha vergonha de assumir que não sabe e diga que vai pesquisar. Todos saem ganhando.

terça-feira, 26 de abril de 2011

Farmacêuticos na Cozinha - Continuação

Com apenas um mês do seu lançamento "oficial", o blog já é um sucesso! Graças às comunidades de farmacêuticos do Linkedin, como do CRF e da FCF-USP, recebi visitas de colegas até do México e da Espanha. Também recebi um grande número de visitas através da indicação de amigos, familiares, ferramentas de busca, além de sites de culinária e gastronomia.
Continuando o post anterior onde explico o porquê do nome farmacêutico na cozinha: cada vez mais me convenço de que esse profissional tem "um pé na cozinha". Tenho vários colegas de trabalho e de graduação, que assim como eu, gostam de testar receitas novas, e principalmente, compartilhar os resultados com amigos e familiares.
Tal como nas áreas da saúde, cada um tem sua "especialidade": tenho colegas que preferem fazer massas; outros, carnes; outro, doces; e por aí vai. Mas uma coisa todos têm em comum: o cuidado na escolha dos ingredientes e no preparo da receita. E o resultado, claro, é um sucesso.
Essa troca de experiências com os colegas tem me motivado muito! Recebi relatos de colegas que se afastaram das panelas por motivos diversos - mas que agora estão conseguindo retomar esse lado.
A ideia deste blog é justamente essa: ser um ponto de ligação entre a farmácia e a culinária, estas duas artes tão antigas e tão vitais à manutenção da saúde. E com um diferencial: trazer informações com seriedade e responsabilidade.

terça-feira, 19 de abril de 2011

Tomate ecológico e saudável

O tomate é uma das culturas mais sensíveis a pragas: fungos, bactérias, insetos... E por isso mesmo é uma lavoura que recebe uma grande carga de agrotóxicos.

O ser humano tende a enxergar o inseto como “vilão” que rouba o seu alimento. Mas é uma simples questão de sobrevivência! O inseto precisa se alimentar. Ele passa por uma plantação de tomate, vê aquele colorido todo, e... nhac! Nós faríamos o mesmo, no lugar dele, não? Pois bem, todos os seres vivos precisam comer. Então de quem é a prioridade?




Tomate verde com larvas. Foto: Wikimedia.

A planta não tem rabo para abanar, como as vacas fazem para espantar as moscas. Não tem spray repelente, como os humanos. Muito menos aquelas raquetes elétricas de fritar mosquito... Mas então, como a planta espanta os insetos?

A natureza possui seus próprios meios para manter equilíbrio entre as espécies. As plantas não são tão quietinhas como parecem! Elas se comunicam com os outros seres vivos através de substâncias: aromas, cores, hormônios... Quando um inseto ataca uma folha, imediatamente a planta começa a produzir substâncias repelentes. Isso já é muito bem conhecido e documentado, e tem o nome de efeito alelopático (não confunda com alopático, que é outra coisa).




Flor do tomateiro. Foto: Wikimedia.

A convivência inseto-planta é normal, e até certo ponto, necessária. É graças aos insetos que as plantas se multiplicam. O problema é quando a planta não consegue controlar a infestação. O modelo agrícola atual, baseado na monocultura - grandes áreas, para produzir grandes quantidades de uma mesma espécie – lança mão do inseticida para eliminar os invasores.

Porém, monoculturas não existem na natureza. E o que antes parecia esperteza do ser humano, agora está se mostrando ser um verdadeiro “tiro no pé”. As plantas tornam-se resistentes aos defensivos. Cada vez é preciso mais inseticida, para obter o mesmo efeito. E com isso poluímos os rios, a água potável... Recentemente saiu na mídia o caso de Lucas do Rio Verde, um município do Mato Grosso (um dos maiores produtores de soja), em que apareceu resíduo de agrotóxico no leite materno. Além de um grave problema ambiental, isso é uma questão de saúde pública.

Uma pesquisa da USP mostrou que o cultivo agroecológico do tomate ajuda a preservar o meio ambiente e reduz custos em até 84%. De que forma? Preservando porções de mata próximo à plantação de tomate. O engenheiro agrônomo Fábio Leonardo Tomas é autor da dissertação de mestrado: “A influência da biodiversidade florestal na ocorrência de insetos-praga e doenças em cultivos de tomate no município de Apiaí-SP”, da Escola Superior de Agricultura Luiz de Queiroz (Esalq) da USP, em Piracicaba. A pesquisa foi realizada com produtores da região Sudeste do estado de São Paulo (Vale do Ribeira), que possui a maior produção de tomate de mesa do País.




Veja a tabela comparativa (fonte: Agência USP Notícias).

O método consiste em espalhar cultivos em clareiras de 25×25 metros abertas na mata a cada 300 metros de floresta. O modelo se baseia nas “Ilhas de Alta Produtividade”, método utilizado por seu orientador Paulo Kageyama no plantio de seringueiras no Acre. Como se sabe, as seringueiras também se desenvolvem melhor em meio à mata. Experiências de plantio da seringueira em monoculturas, como a de Henry Ford há quase cem anos, não deram certo, pois a árvore se torna muito suscetível a pragas.

Se lembrarmos que o tomate é nativo da América do Sul, o cultivo no meio da mata deve ser parecido com o método empregado pelos índios. Ou seja, estamos comprovando cientificamente o que eles já sabiam na prática.
Agora, se o cultivo agroecológico reduziu os custos com agrotóxico, então por que o tomate orgânico ainda é tão caro? Esperamos que experimentos como esse ajudem a reduzir o custo do alimento orgânico e aumentar o seu consumo.

quinta-feira, 14 de abril de 2011

Cenoura em calda




OBA!

Bom, depois de duas semanas de blá, blá, blá, finalmente vamos ao que interessa: as receitas!
Por volta de 1998, quando eu era recém formado em Farmácia e fazia minhas experiências com alimentos em casa, preparei um panetone de cenoura e beterraba. Isso até virou matéria no Diário do Grande ABC.
O processo é simples: faz-se uma calda de açúcar, tal como se faz com as frutas; e é só deixar cozinhar até pegar ponto. O açúcar penetra na cenoura e ajuda a conservá-la. Legumes adocicados (cenoura, beterraba...) podem ser preparados dessa forma, para serem usados em doces. Se tem bolo de cenoura, por que não panetone??



O beta-caroteno deve seu nome à cenoura (Daucus carota em latim).
Existem variedades de cenoura brancas, amarelas, alaranjadas, vermelhas, roxas...


Foto: http://www.carrotmuseum.co.uk


Estes dias, motivado pela proximidade da Páscoa (que lembra coelhos e portanto cenouras), decidi fazer essa receita novamente. Estas são as quantidades:

1 kg de cenouras
750 g de açúcar
1 l de água

Lave bem, descasque e pique as cenouras em pedaços. O tamanho vai depender da finalidade: se é para servir como doce, corte em rodelas ou cubos grandes. Vai muito bem com queijo minas ou requeijão, ou como recheio de torta. Agora, se é para fazer panetone ou colomba pascal, corte em cubinhos, exatamente do tamanho das frutas cristalizadas.

Agora é só misturar tudo e levar ao fogo baixo, mexendo de vez em quando. Pode acrescentar um pouco de suco de limão (ou qualquer fruta ácida para acentuar o sabor). Depois de 1 hora, a cenoura estará tenra, pronta para ser consumida. Em seguida é só deixar esfriar, coar (guarde a calda para outros doces, ela contém nutrientes) e utilizar.

A camada mais externa, alaranjada (ou seria "acenourada"?) dessa raiz tem o nome botânico de córtex, e concentra os pigmentos e açúcares. Em geral, as cenouras mais finas são mais doces e dão um colorido mais intenso, porque predomina aquela camada mais externa. A parte mais interna, esverdeada, se chama cilindro vascular e contém mais água. São as "artérias" da cenoura. Pode reparar: as cenouras mais grossas têm esse cilindro mais desenvolvido, e com isso elas ficam mais "aguadas". Para fazer pratos doces, incluindo bolos, prefiro as cenouras menores. O bolo fica bem alaranjado (perdão, acenourado). Mas isso é questão de gosto pessoal. Não sei se ela é mais nutritiva ou não; aí está um bom motivo para uma pesquisa.

Com a beterraba, o processo é o mesmo. Porém, prefiro cozinhá-las em panelas separadas, senão a cenoura pega a cor da beterraba. Assim ao usar na receita (panetone, colomba, etc.) você tem as duas cores bem distintas.

Experimente as seguintes variações com a sua "cenoura em calda"

- Escorra muito bem e coloque junto com as claras batidas em neve, no bolo de chocolate; fica um "bolo de cenoura ao contrário";
- No pão caseiro;
- Lave e seque para retirar o excesso de açúcar e utilize em pratos salgados. Dá um leve toque oriental à refeição. Experimente com carne em cubinhos, no repolho refogado, no arroz, no yakisoba...
- Cenoura caramelada: no início do cozimento, separe uma parte do açúcar e faça uma calda de caramelo. Acrescente o restante do açúcar com as cenouras e a água e prossiga normalmente.

A beterraba em calda, além de ser usada em pães e bolos pode ser acrescentada a diversos pratos salgados no momento do preparo, dando um toque agridoce. Essa raiz é muito utilizada em pratos do Leste Europeu, como o borscht (veja aqui uma receita dessa e outros pratos dessa culinária, muito comum no Sul do Brasil).

quarta-feira, 13 de abril de 2011

Sardinha - qual é melhor?

Depois do post anterior sobre bacalhau, um colega me fez a seguinte pergunta: qual sardinha tem mais ômega 3? In natura, ou enlatada?
Uma rápida pesquisa na Web trouxe uma meia dúzia de resultados pouco consistentes. Fiquei curioso e fiz uma pesquisa mais aprofundada (ótimo, em se tratando de peixes...), que retornou alguns resultados bem interessantes.

Antes de mais nada, uma pequena revisão:
O nome sardinha abrange vários gêneros da família Clupeidae. Geralmente essas espécies têm pequenas dimensões (10-15 cm de comprimento). O nome sardinha vem da ilha da Sardenha, que já foi grande produtor desse peixe. Elas formam grandes cardumes e se alimentam de plâncton.


Sardinhas do Pacífico (Sardinops sagax)
Foto: Donald Brutzman. Disponível em:
http://faculty.nps.edu/brutzman/kelp/



As sardinhas enlatadas podem ser de espécies variadas, desde sardinhas do género Sardina (as verdadeiras sardinhas) até arenques. O tamanho dos animais enlatados varia conforme a espécie. Já a sardinha do litoral brasileiro pertence ao gênero Sardinella.

A conserva em lata tem a vantagem da praticidade; porém, fica a dúvida: qual é melhor, em se tratando do ômega 3?

Uma pesquisa realizada no Instituto Adolfo Lutz em 1991 mediu a quantidade dos subtipos de gordura (ômega 3, etc.) em sardinhas enlatadas. A análise mostrou que, com o passar do tempo, o ômega 3 migrou da sardinha para o óleo; e os componentes do óleo passaram para a sardinha. Como geralmente jogamos o óleo fora, existe um desperdício considerável. Não conheço ninguém que come o óleo da conserva.

Outro trabalho mais recente (2004) apresenta uma tabela comparativa do teor de ômega-3 entre a sardinha crua, grelhada e em conserva. Foram encontrados os seguintes valores: 3,75 (crua), 3,25 (grelhada) e 0,50 (em lata). Porém, a sardinha em lata apresentou mais ômega-6: 2,31, contra 0,32 na sardinha crua e 0,25 na grelhada.



Sardinhas assadas na brasa, em Torre del Mar (Espanha).
Foto: Wikimedia.


Porém, o teor de gordura na sardinha (e consequentemente de ômega 3) está sujeito a grandes variações sazonais. Isso em função da época do ano, da alimentação da sardinha (acredite, não é sempre que o mar está pra peixe...). Por exemplo, na referência citada, o pesquisador encontrou um mínimo de 1,2% no outono, e um máximo de 18,4% na primavera. Isso faz sentido, considerando que na primavera existe maior abundância de alimento no mar, e as sardinhas estão mais gordas. Como nunca sabemos a época em que a sardinha da lata foi pescada, fica difícil saber qual é a melhor época para obter o maior teor de ômega 3. Mesmo na conserva de sardinha em água, existe perda considerável por oxidação.

Outro fator que influencia bastante o teor de ômega 3 em peixes é a profundidade da água. Por exemplo, o salmão. Quando esse peixe começou a ser estudado, por causa do alto teor desse nutriente, ele era proveniente de águas muito profundas. Porém, à medida que aumentou a procura, ele passou a ser criado em fazendas marinhas, em águas mais rasas, próximo da superfície. Com isso, o salmão do mercado pode ter um teor mais baixo ômega 3 (o que não impede de consumi-lo, claro, pois ele é saudável da mesma forma).

Ou seja, a princípio, a sardinha fresca tem mais ômega 3 do que a enlatada. Porém, como disse anteriormente, esse teor pode variar, e muito. Não faça disso uma neura: se você tiver disponibilidade, prefira a sardinha fresca. Deixe o enlatado para aqueles momentos de emergência; para a pizza, etc. E não se esqueça de separar as latas vazias para reciclagem (leia meu artigo sobre isso).


Sardinhas em conserva (em água e sal), no prato.
Foto: Wikimedia.


Agora, se você precisa tomar ômega 3 por recomendação de médico ou nutricionista, para o tratamento de algum problema de saúde (ex. colesterol), compre ômega 3 em cápsulas, numa farmácia de sua confiança. Nelas, o teor de ômega 3 é padronizado (geralmente 500 ou 1000 mg).

Com informações de: Carla Maria Pereira Pestana. Conservação de filetes de sardinha. Dissertação de mestrado da Universidade de Lisboa. Disponível em:
http://repositorio.ul.pt/bitstream/10451/247/1/20034_ULFACD000209_TM.pdf

domingo, 10 de abril de 2011

Alho tem atividade semelhante a antibiótico

Pesquisa da FOP (Faculdade de Odontologia de Piracicaba, da UNICAMP) demonstra que o alho tem ação antimicrobiana.


Foto: Antoninho Perri/Ascom/Unicamp



O alho é um dos condimentos mais antigos. Estima-se que já era utilizado há seis mil anos.
O professor de química do Cotil (Colégio Técnico de Campinas), da Unicamp, Paulo César Venancio, demonstrou através de testes em ratos que o alho tem ação antimicrobiana semelhante à amoxicilina.
O trabalho teve orientãção do professor Francisco Carlos Groppo, também da Unicamp.
A motivação do professor era encontrar uma planta eficaz contra infecções, especialmente Staplylococcus aureus, uma das maiores responsáveis pelas infecções hospitalares. Outro fato que o incentivou foi a relação de plantas medicinais lançada pela ANVISA em 2010, na qual o alho consta como antisséptico, com base na literatura.



Alho (Allium sativum) à venda num mercado na Itália. Foto: Ian Britton. Freefoto.com


A pesquisa incluiu testes in vivo (em ratos) e in vitro, utilizando diversos tipos de extrato de alho.
A análise dos extratos através de cromatografia gasosa revelou que a ação antimicrobiana é responsável por compostos orgânicos e organossulfurados derivados da alicina.
Além do conhecido Allium sativum, o prof. Paulo Cesar Venancio incluiu na pesquisa o Allium tuberosum, planta do mesmo gênero utilizada na culinária japonesa. A ação biológica do alho japonês ou nirá ainda é muito pouco conhecida. Porém, quanto à atividade antimicrobiana, o alho comum (Allium sativum) demonstrou ser superior.

Convém lembrar que, mesmo sendo de origem natural, o alho não deve ser usado "a torto e a direito" para qualquer infecção. Plantas medicinais usadas indevidamente podem interagir com outros medicamentos. É fundamental o acompanhamento de um profissional de saúde qualificado.


Com informações do site EcoDebate, 04/04/2011, que por sua vez reproduziu reportagem do Jornal da Unicamp, Nº 488.

Para saber mais:

A tese do prof. Paulo Cesar Venancio eá disponível para download na Biblioteca Virtual da Unicamp. Basta se cadastrar e procurar por estes dados de referência:
Paulo Cesar Venancio. Tese de doutorado: “Composição química e atividade antimicrobiana de estratos à base de alho (Allium sativum e Allium tuberosum) sobre a infecção estafilococica”. Autor: Orientador: Francisco Carlos Groppo. Unicamp, Faculdade de Odontologia de Piracicaba.

Sobre possíveis interações medicamentosas decorrentes do uso do alho, veja o artigo "Potenciais interações entre fármacos e produtos à base de valeriana ou alho", de Rodrigo F. Alexandre; Fabíola Bagatini; Cláudia M. O. Simões, publicado na Revista Brasileira de Farmacognosia.

sábado, 9 de abril de 2011

Palestra sobre Farmácia e Nutrição




Foto: Vitamina C. Taufik Zamzami - Fotopedia.

"O que o farmacêutico precisa saber sobre a nova abordagem da Nutrição" - esse é o tema de uma palestra da Dra. Lucyanna Kallufi, farmacêutica e nutricionista, que será realizada no I Encontro de Outono da Associação Brasileira de Farmácia Homeopática.
Assim que soube desse evento, fiz questão de divulgá-lo, pois ele tem tudo a ver com a proposta deste blog: aproximar o conhecimento farmacêutico do nutricional.
Outro palestrante nesse mesmo encontro será o médico homeopata Dr. Marcus Zulian Teixeira, pesquisador da USP, que irá apresentar suas pesquisas com novos medicamentos homeopáticos preparados a partir de drogas modernas segundo o princípio da similitude. O efeito rebote é considerado por muitos como uma das explicações para o funcionamento do medicamento homeopático. Por exemplo: o café em dose ponderal (bebida) estimula o sistema nervoso, despertando. Porém, o organismo reage apresentando o efeito contrário (sono). Seria por esse motivo que o medicamento homeopático Coffea (café) é indicado na insônia. É sobre isso que o Dr. Marcus irá falar.
O encontro termina com mesa redonda coordenada pelo Dr. Pedro Menegasso (CRF-SP) e pela Dra. Márcia de Cassia Borges (CVS-SP): "Medicamentos homeopáticos prescritos por fisioterapeutas e enfermeiros: O farmacêutico pode aviar?"

Confira a programação:
I Encontro de Outono da ABFH

8h-8h30 Recepção e café da manhã
8h30-10h30 Seminário: Novos Medicamentos Homeopáticos: uso dos fármacos modernos segundo o princípio da similitude". Dr. Marcus Zulian Teixeira – médico homeopata.
10h30-11h Coffee-break
11h – 12h30 Palestra: o que o farmacêutico precisa saber sobre a nova abordagem da nutrição – Parte I. Dra. Lucyanna Kallufi – farmacêutica e nutricionista
12h30-14h00 Almoço
14h-15h30 Palestra: o que o farmacêutico precisa saber sobre a nova abordagem da nutrição – Parte II. Dr.a Lucyanna Kallufi – farmacêutica e nutricionista
15h30-16h Coffee-break
16h-17h30 Mesa redonda: Medicamentos homeopáticos prescritos por fisioterapeutas e enfermeiros: a farmácia pode aviar? Dr. Pedro Menegasso (CRF-SP) e Dra. Márcia de Cassia Borges (CVS/SP).


Data: 07 de maio de 2011

Local: APH – Rua Dr Diogo de faria, 839 – Vila Clementino – São Paulo – SP
Horário: 8h30 às 18h
Investimento: Sócios da ABFH/Anfarmag e AMFH: R$ 80,00
Não sócios: R$ 120,00
Estudantes de pós-graduação: R$ 80,00
Estudantes de graduação: R$ 40,00
Inscrições e informações:
ABFH - Tel.: 11 5574-5278 com Srta. Josiane.
Ou por e-mail: secretaria@abfh.org.br
APH - Tel.: 11 5571-0483 com Sra. Adriana ou Sra. Silmara.
Ou por email: aph@aph.org.br

quinta-feira, 7 de abril de 2011

Novo relatório sobre corantes alimentícios

Em um post anterior (A cor do alimento), falei sobre a importância da cor para a alimentação.


Suco de beterraba. Foto: Wikimedia.

Um estudo do Center for Science in the Public Interest (CSPI, ou Centro para Ciência de Interesse Público), uma organização norteamericana de defesa do consumidor) afirma que grande parte dos corantes alimentícios sintéticos deveriam ser banidos. O relatório estima que o consumo de corantes por pessoa tenha se multiplicado por cinco, desde 1955, em parte devido à multiplicação de marcas de cereais matinais coloridos, bebidas à base de frutas, e doces.
Segundo Michael F. Jacobson, diretor executivo do CSPI e um dos autores do relatório, os corantes sintéticos não agregam nada à qualidade nutricional ou a segurança dos alimentos, e ao mesmo tempo acarretam problemas de comportamento em crianças, e possivelmente, câncer. Ainda segundo o diretor da entidade, o banimento dos corantes sintéticos pelo FDA (Autoridade sanitária dos Estados Unidos) forçaria a indústria a colorir os produtos com ingredientes naturalmente presentes em alimentos.
James Huff, pesquisador do National Institute of Environmental Health Sciences (Instituto Nacional de Ciências de Saúde Ambiental, órgão ligado ao governo dos EUA) também engrossa o coro de que “os corantes não acrescentam benefícios aos alimentos”, e acha “decepcionante” a omissão do FDA sobre o assunto.
Segundo o relatório, o FDA usa um critério diferente daquele empregado para outros aditivos (conservantes, emulsificantes, etc.), já que alguns estudos apresentados não foram aceitos como “prova convincente” de risco à saúde. Ele afirma ainda que alimentos coloridos artificialmente deveriam se enquadrar na lei de adulteração, já que o corante pode mascarar a ausência de frutas, hortaliças e outros ingredientes mais caros.
Com base na literatura científica recente, o governo britânico já pediu à indústria para retirar boa parte dos corantes; e a União Europeia vai requerer, a partir de 20 de julho de 2011, a presença obrigatória de uma advertência nas embalagens. De acordo com o CSPI, essa frase de alerta “pode ter efeito adverso sobre a atividade e atenção em crianças” vai inibir o consumo desses produtos em toda a Europa.
Marcas globais, no entanto, poderão continuar usando os corantes proibidos nas suas filiais americanas. Por isso a preocupação das entidades de defesa do consumidor. Nós aqui no Brasil também temos que ficar atentos, lendo os rótulos, questionando e exigindo mudanças.

Pimentão vermelho (de onde se extrai a páprica). Foto: Freefoto.com

Como alternativa, o relatório do CSPI apresenta vários corantes naturais que poderiam substituir os sintéticos. São preparados a partir de beterraba, beta-caroteno, frutas vermelhas (amora, blueberry), cenoura, casca de uva, pimentão (páprica), batata-doce roxa, milho roxo, repolho roxo, cúrcuma (açafrão-da-terra), entre outros. No entanto, o documento alerta que “natural” nem sempre é sinônimo de “seguro”. Alguns corantes naturais, como o carmim de cochonilha e até mesmo o urucum, podem causar reações alérgicas. Raras, é verdade; mas elas existem.
O documento se chama “Food Dyes: Rainbow of Risks” (Corantes alimentícios: um arco-íris de riscos), é de autoria de Sarah Kobylewski (pesquisadora na área de Toxicologia Molecular da Universidade da Califórnia, Los Angeles), em conjunto com Michael Jacobson, diretor executivo do CSPI e autor de livros sobre o assunto. O relatório tem 58 páginas e pode ser acessado gratuitamente no site da entidade (em inglês).
Em um próximo post, irei citar alguns desses corantes naturais que podem ser usados em substituição aos sintéticos. Por exemplo: Aqui no Brasil, a Nestlé lançou recentemente a linha de sucos em pó "La Frutta", que utiliza antocianinas de frutas e outros corantes naturais. Já é um grande passo. Eu experimentei: o sabor é muito bom.


(com informações de: EcoDebate)

terça-feira, 5 de abril de 2011

IX Semana de Fitoterapia de Campinas

IX Semana de Fitoterapia de Campinas
Prof. Walter Radamés Accorsi

Eu já participei em duas edições: 2007 e 2010, é bem interessante. Vale a pena a visita ao CPQBA, Centro de Pesquisas da Unicamp especializado em plantas medicinais e aromáticas.





Começa no dia 26 e vai até o dia 29 de abril a Semana de Fitoterapia Prof. Walter Radamés Accorsi que este ano será realizada na CATI – Av. Brasil, 2340. O evento tem por objetivo compartilhar saberes sobre o valor medicinal das plantas, por meio de palestras, painéis, visita técnica e mini curso.

O tema desta nona edição é “Planta medicinal: é bom pra quê?” Assim sendo, a programação vai responder a esta pergunta de forma clara, científica, responsável e com a autoridade dos renomados profissionais da área que estarão nos brindando com seus saberes.

A IX Semana de Fitoterapia é uma realização da Prefeitura Municipal de Campinas, e da Coordenadoria de Assistência Técnica Integral – CATI, da Secretaria de Agricultura, Pecuária e Abastecimento do Estado de São Paulo e está aberta à participação gratuita de todos os interessados.

O evento tem como parceiros: a Associação Cornélia Vlieg/Oficina Agrícola, Associação de Agricultura Natural de Campinas e Região – ANC, Associação dos Rotarianos de Campinas – Campos Sales, Botica da Família, o Centro Pluridisciplinar de Pesquisas Químicas, Biológicas e Agrícolas (CPQBA) da Unicamp, o Grupo Saberes à Luz do Sol, a Embrapa – Transferência de Tecnologia e o Serviço de Saúde Dr. Cândido Ferreira.

A programação inclui ainda área de exposição. Estão previstas apresentação artística e atividade corporal durante a semana.

Aproveite esta oportunidade de participar e convide seus amigos.


Serviço - IX Semana Municipal de Fitoterapia. Data: 26 a 29 de abril. Local: CATI, Av. Brasil, 2340 – Chapadão. Inscrições: no local e data do evento. Informações e programação: www.cati.sp.gov.br

Como conheci a pitanga


Pitanga (Eugenia uniflora)
Foto: Wikimedia.


No post “Como tudo começou”, falei que meus pais gostavam de provar alimentos e chás típicos dos lugares que visitávamos. Sem saber, estávamos fazendo turismo gastronômico, tão em moda hoje em dia. Do Sul de Minas, gostávamos de trazer feijão, café, manteiga, e obviamente, queijo. Do interior de São Paulo, muitas frutas: uva, ameixa, laranja, mexerica. Do litoral, banana e peixe fresquinho.
No início dos anos 80, não lembro direito se era 1982 ou 1983, nossos tios nos deram a dica de um camping em Ubatuba. Um lugar bem rústico, longe da cidade. (Naquela época, o litoral norte de São Paulo ainda estava sendo descoberto. Em muitos trechos da atual Rio-Santos não havia nem estrada, era preciso atravessar pela areia). E lá fomos nós, em cinco pessoas, na nossa saudosa Brasília verde. Ainda lembro da placa: TK-3050.
Como era nossa primeira experiência de acampamento, tivemos alguns contratempos engraçados. Por exemplo, na Rodovia dos Tamoios, começamos a ver peças de roupa voando na estrada. Foi a força do vento que tinha forçado a lona do bagageiro... Depois, em plena noite de Natal, tivemos uma chuvarada que encheu a barraca de água. Na correria pra levantar as coisas, caiu inseticida sobre a vasilha de peixe, e quase fomos intoxicados... Sem esses acontecimentos, hoje não teríamos histórias para contar.
Essa viagem foi marcada pela variedade de frutas que eu nunca tinha visto de perto. E entre elas, a árvore de folha pequena e frutinhos vermelhos que dá nome ao post! Essa frutinha foi nossa companheira por todo o tempo de acampamento. Nas idas à praia, nos divertíamos saltando para colher as pitangas mais maduras no alto das árvores. Nas refeições, suco de pitanga à vontade. Também não faltavam: caju (tinha uma plantação enorme), maracujá (de todo tipo: doce, azedo, amarelo, roxo), abacaxi, araçá, goiaba...
Gostamos tanto do lugar que voltamos lá por três anos consecutivos (chegamos a ficar 40 dias acampados), e mais uma última vez em 1989. Agora, a experiência ainda mais especial para mim foi no meu aniversário (nasci em fevereiro). Minha mãe fez um bolo de laranja, no fogão de acampamento, com aquela forma que vai direto ao fogo. Depois cobriu com uma calda de pitanga e chamou os filhos dos caiçaras para comemorar conosco. Foi inesquecível. Desde aquelas férias me tornei fã dessa fruta, e prometi a mim mesmo que faria de tudo para torna-la mais conhecida.
Até hoje, quando encontro um pé de pitanga pelas ruas de São Paulo, eu esfrego os dedos nas folhas para sentir o cheirinho. Outro dia ainda vou escrever aqui sobre as suas propriedades medicinais, que são muitas.

segunda-feira, 4 de abril de 2011

Farmacêuticos na cozinha – porquê?

No post “Como tudo começou”, falei um pouco das minhas vivências culinárias da infância. Contei como o Chá para Emagrecer da Weleda foi parar na pizza de atum, e de como isso me tornou um leitor compulsivo de rótulos.
Pois bem. Depois disso, escolhi a profissão de farmacêutico. Eu gostava de plantas medicinais, e estava dividido entre a biologia, a química e a agronomia. Então a farmácia me parecia um “caminho do meio” capaz de integrar as três áreas. E realmente foi. Pelo menos para mim.
Sempre gostei de cozinhar. Inclusive eu era alvo de piadinhas, só porque trocava receitas com as colegas. Eu mesmo fazia biscoitos e outros quitutes para levar à escola. Na hora do recreio, oferecíamos um pedaço do lanche uns aos outros. (Hoje, há pessoas que parecem viver numa bolha de plástico, e não compartilham nada com ninguém de tanto medo de pegar uma doença. É bom ter higiene, mas não vamos exagerar...).
E eu nunca negava quando me pediam as receitas. Aquilo era um passatempo, não era fonte de renda; então não havia por que manter segredo. No dia seguinte, lá estava o papel com os ingredientes e o modo de fazer, tudo certinho. Todos os detalhes, como: o ponto certo, o tempo de forno, etc.
Na faculdade, a mesma coisa. Diminuí um pouco a frequência das minhas experiências culinárias, mas for por falta de tempo. O estudo, o deslocamento, e depois os estágios no laboratório tomavam tempo. Mesmo assim, eu fazia algumas guloseimas aos finais de semana. Uma vez, fiz uma assadeira de pão de mel e cobri com chocolate. Levei para vender no fretado ABC-USP só para testar a aceitação. Vendi tudo.
Durante a faculdade e mesmo depois de formado, trabalhei um tempo com minha mãe, culinarista, desenvolvendo receitas naturais e integrais. Bifes de soja, pão sem glúten, doce de leite sem lactose, geleias sem açúcar... Fazíamos essas coisas para vender no bairro. Todas essas vivências me incentivaram a iniciar uma pós em Nutrição, que infelizmente tive que interromper por motivo financeiro.
Mais tarde, nos locais onde trabalhei, conheci outros farmacêuticos que como eu, gostavam de cozinhar. Pude constatar que todos eles traziam para a cozinha os seus conhecimentos adquiridos na graduação: bromatologia (estudo dos alimentos), botânica, etc. As propriedades físico-químicas (ex. viscosidade, densidade, coloração). Detalhes que passariam despercebidos pela maioria das pessoas, não o são para nós. A variedade correta de abóbora para doce? A espessura do corte das folhas de couve para salada? O tempo de cozimento da carne conforme o animal de origem? Tudo isso tinha alguma explicação teórica.
Observação importante: nessa época, um professor da USP me alertou, dizendo que eu estava tomando o lugar dos profissionais de nutrição. Mas eu não concordo. Não estou tomando o lugar, e sim agregando conhecimento. Acho que quanto mais pessoas, de diferentes áreas, estudam um mesmo assunto, mais amplo é o conhecimento do ser humano sobre aquele assunto. E todos saem ganhando. O importante é cada um ter consciência dos limites de sua profissão. Apesar de ter uma boa base em nutrição, nunca o farmacêutico será habilitado para prescrever dietas, por exemplo. Assim como o nutricionista não poderá gerenciar uma produção de medicamentos, embora tenha bons conhecimentos de boas práticas de fabricação. Cada um na sua – e todos trabalhando em conjunto.
Durante muito tempo, levei essas duas “vidas paralelas”: o farmacêutico e o cozinheiro. Só mais recentemente é que comecei a enxergar a possibilidade de fundi-las numa só. Por que não trazer todo esse conhecimento das especiarias, das plantas, da manipulação, para o mundo da culinária? No início, as farmácias se pareciam com cozinhas. E na verdade, nunca deixarão de ser. Mudam os ingredientes, surgem novas técnicas – mas no fundo, todo farmacêutico é um cozinheiro.

domingo, 3 de abril de 2011

Vai um pastel de grilo aí?

Cientista diz que dieta de insetos pode resolver crise mundial de alimentos

Fantástico - 03/04/11
Para ver a matéria na íntegra clique aqui.

Os insetos geram a mesma quantidade de proteína comendo sete vezes menos ração do que um boi, por exemplo.

Nos restaurantes brasileiros, encontrar um gafanhoto no prato certamente seria motivo de escândalo, mas um cientista holandês ligado à ONU, a Organização das Nações Unidas, afirma que chegou a hora de ver os insetos como fonte de proteína, capaz de ajudar a acabar com a fome no mundo.

O que parece uma praga de gafanhotos pode ser apenas sua próxima refeição. Estamos em uma fazenda no interior da Holanda onde não se criam vacas nem galinhas. O negócio no local é inseto: larvas de borboletas, de besouros, além de grilos e gafanhotos.

É um negócio limpo que não requer muito espaço e nem grandes investimentos. Em um galpão menor do que uma quadra de tênis, dá para produzir 600 quilos de insetos comestíveis por semana. O faturamento mensal chega ao equivalente a R$ 100 mil. Pelo menos, 15 produtores rurais holandeses se dedicam a essa atividade. A Holanda é um dos principais produtores de insetos comestíveis do mundo.

Se existe produção, existe consumo. Um restaurante de Londres, por exemplo, tem, no menu, uma salada de grilos e gafanhotos que custa o equivalente a R$ 20. O dono afirma que 90% dos clientes pedem a iguaria.

O preconceito ainda atrapalha. Afinal, para nós ocidentais, essa não é uma daquelas comidas que a gente pode dizer que come com os olhos. O repórter Marcos Losekann confessa que não foi fácil encarar o almoço gentilmente preparado por alunos da escola de hotelaria da Universidade de Wageningen, a 100 quilômetros de Amsterdam.

Primeiro, chega uma entrada de grilos ao alho e óleo E como manda a boa educação, não dá para recusar. Depois, o garçom traz pasteis de larvas de borboletas. Por fim, uma sobremesa de larvas de besouros com mel e outros ingredientes.

É tudo uma questão de costume, de tempo. Quem garante é o professor Arnold Van Huis, especialista em insetos. Ele é autor de um polêmico estudo sobre a dieta a base de insetos publicado na revista “The Scientist”, uma das mais renomadas publicações científicas do mundo. Segundo o professor Huis, os ocidentais deveriam adotar o cardápio tão popular na culinária asiática como fonte alternativa de proteína. “É um substituto da carne de boi”, diz o professor.

Para o cientista, os insetos poderiam inclusive ajudar a resolver a crise mundial de alimentos. Enquanto um boi, por exemplo, necessita de 10 quilos de comida para cada quilo de carne que produz, os insetos geram a mesma quantidade de proteína comendo sete vezes menos.

Mas e o preço? Hoje, um quilo de insetos não sai por menos de R$ 40. O professor Huis garante que quanto mais produtores investirem na criação de insetos, mais baixo será o custo. “Nos países tropicais, os insetos existem aos montes, sem investimento algum. O próprio Brasil poderia ser um grande exportador de insetos”, sugere o professor.

A idéia foi lançada. Estão servidos?

Farmacêuticos famosos na área de alimentos e bebidas

Depois de uma rápida pesquisa, cheguei a estes 5 nomes - 4 do exterior e 1 brasileiro. Já é um começo. Porém, sei que há muitos mais, profissionais farmacêuticos que tiveram uma participação importante na história da indústria de alimentos e bebidas. Dei mais ênfase à personalidade em si do que às empresas que eles criaram, o que já é um assunto à parte.
Por favor, se quiser sugerir nomes, escreva um e-mail para mim: rodolfo.schleier@gmail.com

Henri Nestlé (1814-1890)

Nascido Heinrich Nestlé em Frankfurt, na Alemanha. Herdou o negócio do pai, uma vidraçaria. Com cerca de 20 anos, vivendo na Suíça, foi aprendiz de um proprietário de farmácia, e aprendeu a aviar receitas e vender medicamentos. Nessa época mudou seu nome para Henri. Em 1843 ele comprou uma indústria de processamento de colza (grão rico em óleo). Passou a produzir óleo de nozes, licores, aguardente, absinto e vinagre. Envolveu-se com a produção de água mineral gaseificada e limonada, iluminação a gás e fertilizantes. Incentivado pelo problema da mortalidade infantil, que na época era comum na Suíça, Henri Nestlé combinou leite de vaca com farinha de trigo e açúcar. O produto podia ser transportado a longas distâncias e ser preparado pela adição de água.

August Oetker (1862 – 1918)

Farmacêutico residente em Bielefeld, Alemanha, Dr. August Oetker foi o primeiro a lançar fermento para pão em sachês. O produto vinha na medida exata para 500 g de farinha, a um preço bastante acessível para as donas de casa. Para divulgar o produto, ele introduziu livros de receitas, anúncios e jornais e sugestões de receitas nos rótulos dos produtos. O sucesso foi tamanho que motivou a criação de outros produtos, como misturas para pudins, essências, açúcar de baunilha.

Caleb Davis Bradham (1867 – 1934)

Nascido na Carolina do Norte (EUA), Caleb ingressou na Universidade de Medicina, mas não conseguiu completar os estudos por problemas financeiros. Logo depois, trabalhou como professor e abriu uma drogaria, que como de costume na época, vendia água gaseificada. Em 1893, ele criou uma formulação digestiva à base de noz de cola, baunilha e óleos essenciais, dando o nome de “Brad’s Drink”. Em pouco tempo, o produto a ser procurado como bebida refrescante, e não mais como medicamento, até que em 1898 mudou o nome para Pepsi-Cola em alusão à sua composição e indicação. Com o tempo, vieram as versões diet, light, acrescida de limão, versões regionais adaptadas à cultura de cada país, entre outras.

John Pemberton (1831 – 1888)

Aos 19 anos, John gradua-se em medicina, recebendo a qualificação voltada para farmácia (durante muito tempo o curso era unificado). Serviu como tenente-coronel durante a Guerra Civil (1861 – 1865). Após a guerra, ele procurou um lugar para se estabelecer como farmacêutico. Assim, chegou a Atlanta onde passou a vender medicamentos. Em 1884 lançou uma bebida alcoólica, composta inicialmente de folhas de coca e noz de cola. Apenas dois anos mais tarde, pressionado pelo puritanismo religioso que proibia o consumo de álcool, Pemberton passou a investir numa água carbonada com sabor, que foi batizada de Coca-Cola.

No Brasil...

Jesus Norberto Gomes (1891 - 1963)

Recém chegado do interior do Maranhão, o jovem Jesus começou a trabalhar numa farmácia, limpando vidros, fazendo entregas e outros serviços básicos. Enquanto isso, ele mantinha um caderno com anotações de fórmulas receitadas pelos médicos. Depois de muito observar, ele começou a estudar os medicamentos por conta própria e passou a criar novas fórmulas. Graduou-se em farmácia muitos anos após já estar trabalhando na área. Seguindo o conselho de um amigo, passou a investir na fabricação de águas gaseificadas. Ao tentar criar novos medicamentos em sua farmácia, chegou a uma fórmula de xarope de guaraná que agradou aos seus netos. Assim nascia em 1920 uma bebida cor-de-rosa, com sabor adocicado, lembrando vagamente cravo e canela que se tornou símbolo do Maranhão (em 2010 era o refrigerante mais consumido no estado).

Esta é uma pequena homenagem a estes empreendedores, visionários, que a partir de seus conhecimentos farmacêuticos deixaram sua marca na história da alimentação.

Fonte:
Wikipédia
Site Nestlé
Site Dr. Oetker
Revista Época
Revista do CRF-SP

Micotoxinas

Anvisa publica Resolução que estabelece os limites máximos de micotoxinas presentes nos alimentos



Fonte: Site do CRF-SP


Produtos do metabolismo de fungos, as micotoxinas estão presentes em diversos alimentos e podem apresentar características benéficas, como é o caso da penicilina, que ainda hoje é grande aliada no combate às infecções bacterianas, ou oferecer grande risco à saúde, por exemplo, as aflatoxinas e ocratoxinas, que possuem características nefrotóxicas e carcinogênicas.

A RDC nº 7, publicada em 09/03/2011, possui quatro anexos que listam e classificam os alimentos e estabelece os limites máximo tolerados (LMT) de aflatoxinas (AFB1+AFB2+AFG1+AFG2 e AFM1), ocratoxina A (OTA), desoxinivalenol (DON), fumonisinas (FB1 + FB2), patulina (PAT) e zearalenona (ZON). O anexo I entrou em vigor imediatamente na data da publicação da resolução, e os anexos II, III e IV entrarão em vigor em janeiro de 2012, 2014 e 2016, respectivamente.

Segundo a Anvisa, os limites foram baseados em resultados obtidos a partir de critérios estabelecidos pelo Codex Alimentarius, uma coletânea de orientações e recomendações sobre a segurança de alimentos reconhecida pela Organização Mundial da Saúde (OMS).

A regra aplica-se às empresas de importação, produção e distribuição das seguintes categorias de bebidas, alimentos e matérias primas: amendoim e seus derivados; alimentos à base de cereais para alimentação infantil (lactentes e crianças de primeira infância); café torrado (moído ou em grão) e solúvel; cereais e produtos de cereais; especiarias; frutas secas e desidratadas; nozes e castanhas; amêndoas de cacau e seus derivados; suco de maçã e polpa de maçã; suco de uva e polpa de uva; vinho e seus derivados; fórmulas infantis para lactentes e fórmulas infantis de seguimento para lactentes e crianças de primeira infância; leite e produtos lácteos, leguminosas e seus derivados.

Clique aqui para ler a RDC nº 7/2011 na íntegra

Luana Frasca
Assessoria de Comunicação CRF-SP

sábado, 2 de abril de 2011

Como tudo começou

Quando eu era criança, já era fascinado pelo mundo das plantas medicinais e aromáticas. Nasci em São Paulo, Capital, e sempre morei na região do ABCD. Hortelã, poejo, erva-cidreira, sempre foram plantas comuns nos quintais do meu bairro. Nas minhas fotos de infância, em Santo André, eu sempre aparecia próximo das plantas. Nas viagens ao litoral paulista ou ao Sul de Minas, aonde íamos com uma certa frequência, minha mãe sempre trazia alimentos e chás típicos do lugar.

Também tínhamos uma grande variedade de chás medicinais da Weleda. Alguns devem se lembrar dessa linha de chás compostos, que vinham acondicionados em latas muito bonitas. E é lógico, que quando acabava o chá, a gente reaproveitava a latinha para guardar outras coisas. E sempre tomávamos o cuidado de escrever uma etiqueta nova para identificar o conteúdo.
Numa noite de sábado, estávamos em casa fazendo pizza. Eu devia ter uns dez anos. Subi numa cadeira para pegar o orégano, que estava guardado numa dessas latas. Só que em vez da lata certa, peguei uma lata de “Chá para Emagrecer” – composto de fucus, bétula, cavalinha, entre outras plantas medicinais. Estava com o rótulo original da empresa, mas pensei que fosse orégano. E... coloquei na pizza de atum!
Minha mãe nos dava bastante liberdade na cozinha. A gente gostava de variar o tempero da pizza: manjericão, tomilho, manjerona... Mas sinceramente, fucus na pizza, eu nunca vi. Foi só na mesa que alguém percebeu que aquilo não era orégano. Para surpresa de todos, não ficou ruim. O fucus é uma alga marinha, e até combinou com o sabor do peixe.
A história acabou “em pizza”, com toda a família dando risada. Felizmente, não era nada venenoso. Pelo menos teve o lado bom: aprendi a tomar mais cuidado com a identificação dos alimentos no armário. Hoje leio todos os rótulos, até as letrinhas pequenas. E aprendi de uma vez por todas que a mistura de sabores não tem fronteiras. Até mesmo por obra do acaso, podem surgir novas receitas.