segunda-feira, 30 de janeiro de 2012

Pimenta orgânica

NNa receita "Geleia de maçã com pimenta", que postei ano passado, utilizei pimenta vermelha convencional que comprei no sacolão perto de casa. No último Natal, fiz uma receita parecida, só que em vez de maçã usei abacaxi. E usei pimenta vermelha orgânica, que trouxe de um sítio de amigos em São Roque-SP. Percebi que ela arde muito mais. Aí lembrei de uma aula na Pós em Fitoterapia, em que perguntei ao professor se existiria diferença entre uma planta cultivada de forma convencional, e a mesma planta de cultivo orgânico.
Ele explicou o seguinte: as plantas possuem dois tipos de metabolismo: o primário e o secundário. O metabolismo primário é aquele mais direcionado ao crescimento, formação de tecidos em geral. É este o responsável pelo crescimento dos talos, folhas, flores, frutos, raízes... O outro metabolismo, por sua vez, forma aquelas substâncias presentes em pequena quantidade na planta. Os alcaloides, vitaminas, enzimas, flavonoides, antocianinas e por aí vai. Boa parte dessas substâncias "secundárias", porém vitais para a planta, têm alguma função de defesa contra o ataque de predadores. Voltando à pimenta: o pássaro vê o fruto vermelho, e instintivamente vai lá se alimentar dela. E a não ser que ele seja algum pássaro adaptado a consumir esse tipo de fruto picante, ele sai com o bico queimando. A capsaicina (e outros compostos presentes na pimenta) seriam como um "repelente" natural.
E o que o cultivo orgânico tem a ver com isso?
É que a agricultura convencional, visando o maior tamanho dos frutos, estimula o metabolismo primário (lembra? o primeiro, responsável pelo crescimento vegetativo). Como? Fornecendo os nutrientes já prontos (especialmente nitrogênio, fósforo e potássio, o famoso trio NPK). E também por meio do uso dos defensivos (agrotóxicos), que mantém longe os invasores. Resultado: não faz sentido para a planta produzir essas substâncias "menores" como alcaloides, por exemplo, e foca totalmente na produção das substâncias que dão a estrutura - no caso da planta, celulose e água. A planta que cresce sem essa "proteção externa", ao contrário, se vê obrigada a produzir essas substâncias para sua própria defesa.
Basta comparar com uma cidade em crescimento. Nas cidades e bairros "jovens", qual é o tipo de comércio mais comum? Lojas de material de construção, tecidos, ferramentas, supermercado, açougue, quitanda. Esse é o crescimento primário. À medida que o bairro ou cidade vai crescendo, ela recebe os serviços básicos (farmácia, correio, banco), e passa a contar com serviços cada vez mais especializados. Esse é o crescimento secundário.
Se isso for verdade, faz todo o sentido o fato da pimenta orgânica arder mais do que a convencional. E explicaria também o argumento de que o alimento orgânico é mais nutritivo. Está aí um interessante tema para discussão.

VOLTEI!

Depois de um longo tempo de pausa - mais de seis meses - voltei a postar no blog. Confesso que estava um pouco desanimado, porque quase não via comentários dos leitores. Porém para minha surpresa, o blog continuou sendo tendo um razoável número de acessos, considerando que não tinha nenhuma novidade. E mais: recebi alguns e-mails de leitores que sentiam falta das postagens. Ou seja, aprendi que nunca devemos desistir. Valeu, gente!

Agradecimentos especiais:
- Luiz Carlos Machado (não se identifica de onde), que comentou a postagem sobre sardinha e lembrou que não existe sardinha enlatada em água e sal, tal como o atum. Pelo menos nunca vi. Encontrei apenas uma marca em Portugal, a Conservas Ramirez, que fabrica sardinha em água e sal. Desconheço se eles a comercializam no Brasil.
- Amílcar Parada, cervejeiro artesanal do blog "Senhora Birra", que comentou minha postagem sobre cenouras. Ele fez uma receita de cerveja de cenoura (Rabbit Ale), e passou a usar as cenouras de menor tamanho com base na minha afirmação de que estas são mais doces. Ficou boa, segundo ele. Uma boa dica para a Páscoa, rsrsrs.
- Helder Aureliano, de um grupo de agricultores de Parati - RJ, que comentou a receita de Geleia de Maçã com Pimenta e pergunta sobre métodos caseiros de esterilização de vidros. Indiquei pra ele (e pra quem mais possa interessar) o ótimo site Prato Fundo, que por sinal também é de um farmacêutico.
- Aos meus colegas de trabalho, colegas de profissão, muitos dos quais conheci através das redes sociais e nem conheço pessoalmente, mas que me incentivam a seguir em frente com as receitas e curiosidades sobre alimentos. Muito obrigado mesmo!

segunda-feira, 20 de junho de 2011

Locro andino


O locro é um tipo de cozido originário da Cordilheira dos Andes, que já existia muito antes da chegada dos colonizadores. Seu nome vem do idioma quéchua, língua indígena falada até hoje no Peru e Bolívia, "luqru" ou "ruqru".
Prato substancioso, próprio para enfrentar o frio das montanhas, ele consiste basicamente de: milho, abóbora e feijão cozidos (misturados, ou não). O milho pode ser verde ou maduro, incluindo as centenas de variedades nativas que existem: milho branco, roxo, preto. Pode conter também: carne, batata, mandioca, amendoim, tomate, ervilha, pimenta, pimentão, cebola, cenoura...
No altiplano andino ele leva carne seca de lhama (chamada charqui, de onde veio o nome “charque”).


(Foto: Rodolfo Schleier. Zoo de Buenos Aires, outubro/2010).


Na Bolívia existe o "Locro carretero" que leva arroz, banana, mandioca e urucum (colorau). No Brasil é comum nos estados de fronteira como Acre, Mato Grosso e Mato Grosso do Sul. O seu consumo se difundiu para as regiões da planície, chegando até a costa do Atlântico.
Gosto muito da culinária dos nossos vizinhos. Muitos brasileiros dizem América Latina” se referindo aos países de língua espanhola, esquecendo que também somos parte dela. Sem falar no problema do preconceito. Muita gente associa "Paraguai", "Bolívia", "Colômbia" somente com o contrabando, e não sabe a riqueza cultural desses países. Nesse ponto a culinária tem o poder de nos fazer resgatar o que existe de bom em todas as culturas.
Há um tempo atrás comprei um pacote de milho branco para canjica. Mas não queria prepará-lo da maneira tradicional brasileira, com leite condensado e coco ralado. Queria um prato salgado, e de preferência apimentado. Cozinhei a canjica em água, somente, na pressão. Temperei com o que tinha aqui – pimenta dedo de moça, pimentão vermelho, cebola. Servi junto com feijão (como se o milho estivesse no lugar do arroz). E modéstia à parte, ficou muito bom.




A base está lançada! Agora é só inventar a sua receita!

Ah, e aqui vai uma sugestão de música para acompanhar o seu locro:

"El Condor pasa", com o grupo argentino "Los Omaguacas".

quarta-feira, 25 de maio de 2011

Variações sobre Arroz Doce - 4

No último post da série "Arroz Doce", apresento versões com frutas.
Aqui, utilizei geleia de morango. A polpa fresca perde muito da cor durante o cozimento; por isso a geleia é uma opção, pois o açúcar ajuda a conservar a cor da fruta.
Já falei anteriormente da cor dos alimentos, e da importância de muitos desses pigmentos naturais para a saúde humana.

Os vários tipos de arroz doce descritos até agora: simples, com chocolate, morango...





Frutas vermelhas como o morango são riquíssimas em flavonoides de atividade antioxidante. Claro que boa parte se perde no cozimento; mas o fato é que é muito mais saudável usar essas cores naturais na cozinha, do que substâncias sintéticas estranhas ao organismo.
Outras opções para dar cor são: pó para pudim, e gelatina. Mas antes verifique a composição: já existem no mercado algumas marcas à base de corantes naturais e polpas de frutas.
(Ex.: http://www.oetker.com.br/?actA=2111&produtoID=190)

Arroz doce com morango

2 xícaras de arroz integral
1 litro de água
1 lata de leite condensado
1/2 litro de leite
4 colheres de sopa de geleia de morango

Cozinhe o arroz na água. Acrescente o leite condensado, o leite, a geleia. Deixe ferver, mexendo de vez em quando, até dar ponto. Pouco antes de servir pode colocar pedacinhos de morango ou outra fruta vermelha qualquer (amora, framboesa, cranberry).

sábado, 21 de maio de 2011

Variações sobre Arroz Doce - 3

Outra versão de Arroz Doce

Arroz doce com uva passa

2 xícaras de arroz integral
1 litro de água
1/2 litro de suco de uva
1/2 litro de leite
Açúcar a gosto (mais ou menos 1 xícara)
Uvas passas (mais ou menos 1 xícara)

Na véspera, coloque as uvas passas de molho no suco. Na hora de usar, coe e reserve o suco.

Cozinhe o arroz na água. Acrescente o suco de uva, o leite, o açúcar e por último as uvas passas. Deixe ferver, mexendo de vez em quando, até dar ponto. Fica bom também com vinho tinto.



Experimente também as combinações:
- damasco com nozes
- ameixa seca com suco de maçã


Em sentido horário: arroz doce com uva passa, com cenoura e laranja, com morango, e com chocolate.

quinta-feira, 19 de maio de 2011

Variações sobre Arroz Doce - 2

No post anterior sobre arroz doce, apresentei uma receita com chocolate.
Outra variação possível é acrescentar:

- Geleias de frutas;
- Doce de abóbora;
- Raspas de laranja, limão (o suco não, pois é muito ácido e pode talhar o leite)
- Cenoura, beterraba (são legumes naturalmente adocicados, tanto que servem para fazer bolo).

Nesta receita eu coloquei raspa de laranja, cenoura ralada e leite condensado.






Arroz doce com cenoura e laranja

2 xícaras de arroz integral
1 litro de água
1 lata de leite condensado
1/2 litro de leite
1 cenoura ralada
Raspas de laranja
2 colheres de sopa de açúcar mascavo
1 colher de chá de cardamomo em pó

Cozinhe o arroz na água. Acrescente o leite condensado, o leite, a cenoura, o açúcar mascavo e a raspa de laranja. Deixe ferver, mexendo de vez em quando, até dar ponto. Polvilhe com o cardamomo.

segunda-feira, 16 de maio de 2011

Linhaça - Rica em fibra, ômega 3 e ômega 6

Artigo do colega farmacêutico Silberto Azevedo, de Belo Horizonte - MG, sobre os benefícios da linhaça.

LINHAÇA – RICA EM FIBRA, OMEGA 3 E OMEGA 6


LINHAÇA – FONTE DE FIBRAS, OMEGA 3 E OMEGA 6

História e descrição

A Linhaça (Linum usitatissimum) é uma das mais antigas plantas cultivadas, e que cresce ao redor do mundo em muitas variedades e formas cultivadas por sua fibra e óleo. Os principais componentes do Óleo de Linhaça são os ácidos graxos da família Ômega-3, e também os da família Ômega-6, com seus respectivos precursores e derivados, além das lignanas e mucilagem.
Os relatos mais antigos com relação a semente da linhaça são datados de 5000 anos antes de Cristo, na Mesopotâmia. Foram até encontrados desenhos da semente em tumbas faraônicas, o que comprovam o uso desta herbácea desde a antiguidade. Obviamente tais provas não nos mostram exatamente como a linhaça era utilizada no passado, mas comprovam que a semente de linhaça já era conhecida e tinha alguma aplicação na vida das pessoas.


Linhaça Dourada x Linhaça Marrom

A linhaça dourada, proveniente de climas frios, é muito mais rica em ômega-3, ômega-6, ômega-9 e gorduras polinsaturadas além de serem cultivadas sem agrotóxicos, já a linhaça marrom, mais fácil de encontrar e mais barata, possui pouco ômega-3 e é produzida sem muito rigor, o que a torna menos indicada.

Semente de linhaça x farinha de linhaça x óleo de linhaça

A linhaça pode ser encontrada e consumida de várias maneiras, mas as mais comuns são a semente de linhaça triturada, a farinha de linhaça e o óleo de linhaça. Os três possuem os mesmos benefícios e a única diferença é a maneira de consumi-los.

A linhaça triturada é muito utilizada no preparo de bolos e biscoitos, pois seus pequenos pedaços deixam esses alimentos mais crocantes. A linhaça triturada também é ótimo acompanhamento aos cereais matinais.
A farinha de linhaça, muito utilizada por quem faz dieta tanto para emagrecer quanto para engordar, é a semente da linhaça moída até virar farinha e pode ser consumida misturada a bebidas como sucos e vitaminas.
O óleo de linhaça encontrado em cápsulas é uma alternativa para aqueles que preferem uma solução rápida, prática e sem gosto, pois basta ingerir a cápsula de óleo de linhaça diariamente para obter os mesmos benefícios.

Ações terapêuticas

Antioxidante, redutora do colesterol, protetora cardíaca, melhora do trânsito intestinal.

Propriedades

O óleo de linhaça possui os ácidos graxos ômega-6 e ômega-3 em uma proporção que é considerada a ideal pela maioria dos pesquisadores, sendo altamente indicado para o equilíbrio das proporções entre os dois grupos de ácidos graxo ômega. O óleo de linhaça contém entre 50 e 60 % de ômega-3 (ácido linolênico) e entre 14% e 20% de ômega-6 (ácido linoléico).
A suplementação com óleo de linhaça resultou em uma redução na freqüência de ataques de asma e uma redução no uso de medicamentos para a condição. Níveis reduzidos de ácidos graxos ômega-3 são associados ao aumento na incidência de câncer de mama, próstata e cólon. O ômega-3 reduz os triglicérides plasmáticos, a agregação plaquetária, relaxa os vasos sangüíneos e reduz a pressão arterial. Pacientes com artrite reumatóide participaram de um estudo duplo-cego de um ano de duração, no qual receberam 2,6 g de ômega-3 diariamente, e obtiveram significativas melhoras no todo e redução da dor, o que permitiu uma redução correspondente no uso de analgésicos. Os ácidos graxos ômega-3 freqüentemente proporcionam melhoras em anormalidades no metabolismo dos ácidos graxos descobertas em pacientes com psoríase e eczema.
A suplementação com óleo de linhaça aumentou a concentração de Ômega-3 nos fosfolipídeos das plaquetas e lipídeos plasmáticos de voluntários vegetarianos masculinos.
No sistema digestivo a linhaça previne o câncer de colón, melhora a prisão de ventre e acidez estomacal. Lubrifica e regenera a flora intestinal e elimina gases gástricos. É um laxante por excelência. Também previne os divertículos nas paredes do intestino. Contém mais fibra que a maioria dos grãos.
No sistema imunológico a linhaça previne os processos alérgicos e o LUPUS.
No sistema cardiovascular é útil no tratamento da ateroesclerose, devido a sua ação antiinflamatória e redutora dos níveis de colesterol, no tratamento da trombose, hipertensão, agregação plaquetária e arritmia cardíaca.
O consumo de linhaça diminui as condições inflamatórias de todo tipo e também trás benefícios para o cabelo e a pele, essencialmente a pele seca e sensível aos raios do sol, trazendo também melhoras no tratamento da psoriase e eczema.
Um dos mais notáveis indicativos de melhora devido ao consumo de linhaça é o incremento progressivo na vitalidade e na energia. A linhaça aumenta o coeficiente metabólico e a eficácia na produção de energia celular. Os músculos se recuperam da fadiga do exercício.
Terapia oral com óleo de linhaça, em cápsulas na dose de 1 ou 2 g/dia, reduz a inflamação da superfície ocular e melhora os sintomas de olho seco em pacientes portadores da síndrome de Sjögren. Estudos de longo prazo são necessários para confirmar o papel desta terapia como auxiliar no tratamento da ceratoconjuntivite seca de portadores da síndrome de Sjögren.(Pinheiro Júnior, 2007).

Indicações
• Na prevenção de doenças cardiovasculares, como hipertensão e infarto;
• Para reduzir os níveis sangüíneos de colesterol e triglicérides;
• Ajuda a manter a pele saudável e fortalece o sistema imune;
• No tratamento da depressão, asma e oesteoporose;
• Como auxiliar no tratamento da artrite reumatóide;
• No auxílio ao tratamento dos sintomas da menopausa;
• Útil na dieta de vegetarianos;
• No tratamento do olho seco na síndrome de Sjögren;

Posologia

• Tomar de 2 a 6 cápsulas de 500 mg ou de 1 a 3 cápsulas de 1 g/dia. Recomenda-se o uso concomitante de suplemento de vitamina E.

Reações adversas
Diarréia, náusea e flatulência em raros casos.

Precauções
Nos pacientes com diarréia.

Interações
Pode interagir com agentes lipofílicos.

Contra-indicações
Hipersensibilidade a linhaça e ácidos graxos insaturados.

Fontes

Brasil Sociedade Brasileira de Cardiologia IV Diretriz Brasileira Sobre Dislipidemias e Prevenção da Aterosclerose. Departamento de Aterosclerose, 2007
GAROFOLO, Adriana; PETRILLI, Antônio Sérgio. Balanço entre ácidos graxos ômega-3 e 6 na resposta inflamatória em pacientes com câncer e caquexia. Rev. Nutr., Campinas, v. 19, n. 5, Oct. 2006 . Available from . Accesso em 05/05/2011. doi: 10.1590/S1415-52732006000500009.

MARTIN, Clayton Antunes et al . Ácidos graxos poliinsaturados ômega-3 e ômega-6: importância e ocorrência em alimentos. Rev. Nutr., Campinas, v. 19, n. 6, Dec. 2006. Available from http://www.scielo.br/scielo.php?script=sci_arttext&pid=S1415-52732006000600011&lng=en&nrm=iso. Accesso em 05/05/2011. doi: 10.1590/S1415-52732006000600011.

PINHEIRO JR, Manuel Neuzimar; SANTOS, Procópio Miguel; SANTOS, Regina Cândido Ribeiro dos; BARROS, Jeison de Nadai; PASSOS, Luiz Fernando; NETO, José Cardoso. Uso oral do óleo de linhaça (Linum usitatissimum) no tratamento do olho seco de pacientes portadores da síndrome de Sjögren. Arq Bras Oftalmol. 2007;70(4):649-55.


ATENÇÃO: ESTE TEXTO TEM CARÁTER INFORMATIVO. NÃO USE PLANTAS MEDICINAIS OU MEDICAMENTOS SEM O CONHECIMENTO DO SEU MÉDICO.

"SE PERSISTIREM OS SINTOMAS, O MÉDICO DEVERÁ SER CONSULTADO."

Variações sobre Arroz doce

Como falta pouco para chegar em junho, chegou a hora de separar receitas para as festas da época. Vou começar pelo arroz doce.

Saboroso e substancioso, esse prato une as propriedades nutricionais do arroz e do leite. As especiarias, como cravo, canela, raspa de limão ou gengibre, dão um toque especial.

É um prato bem versátil. Dá pra consumi-lo em várias ocasiões, além das que a gente já está acostumado:
- no café da manhã, com frutas;
- em festas: além das festas juninas que citei, pode ser servido em festas de aniversário, festas infantis... Em Portugal ele é servido em casamentos.

A mistura de arroz, leite e açúcar é uma herança da ocupação árabe na Península Ibérica durante a Idade Média. Chegou ao Brasil pelas mãos portuguesas, e mais tarde recebeu também o leite de coco e o amendoim ( influência africana e indígena, respectivamente).

Costumo fazer essa receita com arroz integral, por alguns motivos:
- a fibra presente na casca torna a absorção do açúcar mais lenta. Isso evita uma elevação rápida da glicemia (açúcar no sangue);
- o arroz integral demora mais para empelotar. Talvez por causa da fibra, mesmo depois de horas na geladeira, ele mantém a mesma textura do momento do preparo. Enquanto o arroz branco precisa ser consumido logo, senão absorve o líquido formando "blocos" (o famoso “arroz carnavalesco”);
- melhora o funcionamento do intestino, pela mesma presença da fibra já citada.
E quanto ao sabor? Até mesmo quem não está acostumado ao arroz integral aprovou essa versão da receita.
Dá pra fazer arroz doce sem açúcar; mas lembre-se de usar adoçante próprio para culinária; e não se esqueça que ele dura menos, já que o açúcar ajuda a conservar.
E as variações? Fica por conta da criatividade de cada um. Ouvi dizer que nos Estados Unidos existe uma casa especializada em arroz doce, de todo tipo. Quem sabe em breve alguém abre uma casa dessas no Brasil. Pelo menos, nunca vi até agora.

Bom, este aqui eu fiz com chocolate. Cozinhei o arroz integral no vapor (2 xícaras de arroz para 1 litro de água)


Depois, ao arroz já cozido, acrescentei 1 litro de leite e 6 colheres de sopa de chocolate em pó. Aí é só deixar cozinhar para apurar (uns 45 minutos). Eis o resultado:


Opcionais: leite condensado, coco ralado, amendoim, nozes, castanhas...

Nesta época pós-Páscoa, é comum encontrar ovos de chocolate em promoção nos supermercados. Experimente quebrar em pedacinhos pequenos e colocar no arroz doce quente. Ele derrete e fica uma delícia!

sexta-feira, 13 de maio de 2011

Carne de panela com pimenta-cambuci

Esta receita nem deu tempo de fotografar, de tão saborosa que ficou. Mas não tem segredo nenhum, por isso aqui vai o texto mesmo.

A pimenta cambuci pertence ao mesmo gênero botânico Capsicum, família Solanáceas, assim como a pimenta dedo-de-moça e o pimentão. Só para relembrar, as pimentas "de grão" (como a pimenta do reino, pimenta rosa, da jamaica) pertencem a outras famílias. (Viu como em botânica as aparências enganam?)

Porém, o sabor dela é bem menos picante e ligeiramente ácido. A palavra "cambuci" tem origem no tupi Kui’mbuka que significa "tipo de cuia". É a mesma raiz da palavra "cumbuca". Já o fruto conhecido como cambuci é uma Mirtácea, parente da goiaba, que era muito comum na Mata Atlântica, tanto que deu nome a um bairro de São Paulo.

Como dá um certo trabalho picar na hora de usar, e o seu aroma resiste bem ao congelamento, você pode fazer o seguinte: Lave as pimentas e tire a parte branca de dentro, inclusive as sementes - exatamente como você fez a geleia de maçã com pimenta, da semana passada. (como bom seguidor deste blog você já preparou, né? NÃO FEZ?? Tudo bem, dou um desconto...) É só escorrer bem a água, se necessário tirando o excesso com um guardanapo, e cortar em tirinhas finas. Coloque num saco plástico e congele. Dura meses.

Vamos à receita:

½ kg de coxão duro* cortado em cubos grandes
1 cebola
2 dentes de alho
4 pimentas-cambuci, cortadas em tirinhas
4 colheres (sopa) de farinha de trigo
4 colheres (sopa) de óleo
Sal a gosto

Frite a cebola e o alho em um pouco de óleo, acrescente a carne, e deixe dourar, virando de vez em quando para fritar por igual. Ela fica “quase” torrada, mas cuidado para não amargar. Feito isso, cubra com água fervendo e deixe na panela de pressão por 1 h (ou 2 h na panela comum, tampada). Ainda não acrescente tempero algum.

(Obs. Esse procedimento de fritura + cozimento lento amolece as fibras da carne e pode ser feito na véspera)

Agora, corte os cubos em fatias e transfira para uma panela ou frigideira, com a manteiga. Logo em seguida junte a farinha, que deve cobrir os cubos de carne por igual, sem formar grumos. Deixe dourar por alguns minutos, mexendo para não queimar. Lembre-se que a carne já está cozida, é só para dourar mesmo. Aí é só acrescentar água (cerca de meio litro), o sal e a pimenta picada. Fica muito bom em sanduíches, ou acompanhando arroz com feijão.
Opcionais: cogumelos, brócoli pré-cozido, batata, ervilha, milho verde...

* Em vez de coxão duro, pode ser músculo, ou qualquer outra carne "de segunda" - que de segunda não tem nada, só depende do jeito de preparar.
(Assim como uma "picanha de primeira" pode facilmente se transformar num "churrasco de segunda"... Entendeu?)

Aviso importante

Caros leitores,

Informo que a postagem "Erva doce para gripe suína", do dia 28 de março, foi reenviada erroneamente pelo site Blogger.com que passou por problemas técnicos na data de ontem (12 de maio).
Numa tentativa de reparar o problema e se desculpar perante os usuários, a Google (proprietária do Blogger) está recuperando textos postados nessa data.
Esperamos que o problema do Blogger seja logo normalizado!

Saudações e bom final de semana,

Rodolfo Schleier

quarta-feira, 11 de maio de 2011

Reportagem: Os benefícios do mel

Os benefícios do mel para a saúde



Matéria muito completa da Record News.
O produtor orgânico e terapeuta José Estefno Bassit fala da produção de mel, dos vários tipos, cuidados ao comprar... Fala também da própolis e da geleia real.

Vale à pena assistir. Clique aqui

Dica de Livro: Ervas do Cerrado



Obra traz informações sobre de 211 plantas medicinais com ênfase nas nativas do cerrado


Projeto de mais de 20 anos, a obra do presidente do Conselho Regional de Farmácia em Mato Grosso do Sul – CRF/MS, Ronaldo Abrão, reúne uma coleção de 325 fotos coloridas, informações sobre 211 plantas medicinais com ênfase nas nativas do cerrado, tudo com muito bom gosto e em um acabamento de primeiríssima qualidade.

O autor do livro e presidente do CRF/MS ressaltou que vê nas plantas medicinais, mais que um segmento do ramo de farmácia. “É uma paixão adquirida durante anos de estudo dedicados ao conhecimento do uso etnofarmacológico e respectivamente apoiados em pesquisas fitoquímicas,” concluiu.

O livro "As Ervas e a Saúde. A Farmácia no Cerrado" concorreu ao 12º Prêmio Jorge Salim de Excelência Gráfica / 1º Troféu Jorge Salim de Design Gráfico , na categoria Livros de Textos/Técnicos, destacando entre os finalistas como uma das três melhores publicações de 2010 na categoria Livros de textos/técnicos.
A obra estará disponível para venda através de um site próprio, onde as pessoas poderão entrar em contato com o autor por e-mail e também, adquirir a obra: www.aservaseasaude.com.br.
Fonte: CRF-MS

segunda-feira, 9 de maio de 2011

Molho de pimenta

O nome "pimenta" é muito abrangente, e justificaria não apenas um post, mas um site inteiro, tamanha a variedade. Aliás, já existe: é o Fórum de Discussão sobre Pimentas.

Nestas duas receitas (Geleia e Molho), utilizei a pimenta dedo de moça que é uma pimenta sul-americana do gênero Capsicum, assim como o pimentão, e da mesma família do tomate, da batata e da beringela (Solanáceas).
Os historiadores contam que os nossos índios faziam uma mistura de pimenta com sal, e a comiam junto com as carnes assadas.



Outros tipos de plantas conhecidas como pimenta são: a pimenta do reino (da família das Piperáceas, gênero Piper), e a pimenta da Jamaica (uma Mirtácea, tal como a goiaba, a pitanga e a jabuticaba). E outras espécies menos conhecidas.
Preparei este molho no mesmo dia em que fiz a Geleia de Maçã com Pimenta.
Enquanto a Geleia tem um sabor mais delicado, e a polpa de maçã dá um aspecto transparente, eu queria algo mais encorpado e picante.
Imaginei que para isso a pimenta deveria ser transformada em uma pasta, acrescentada de azeite, vinagre e sal.
Ingredientes:
4 pimentas dedo de moça (bem maduras, vermelhas, mas sem passar do ponto)
1 xícara de vinagre de vinho branco
1 xícara de água
1 colher (sopa) de sal
4 colheres de sopa de azeite (usei uma mistura de azeite de oliva com óleo de soja, mas imagino que deve ficar melhor ainda com outros tipos de azeite, entre os quais o dendê)

Modo de fazer
Assim como na Geleia de Maçã com Pimenta, lave as pimentas, corte no sentido do comprimento e tire as sementes e partes brancas. É uma questão de gosto, pois as sementes deixam o molho mais ardido (provavelmente a semente concentra a capsaicina, que é um dos princípios ativos desse tipo de pimenta. Além disso, como eu pretendia colocar o molho nessas garrafinhas de vidro, achei melhor tirar as sementes para não entupir.
Feito isso, com as pimentas cortadas e limpas, piquei em pedaços grandes, e levei ao fogo com metade dos ingredientes (ou seja, 1/2 xícara de água, 1/2 de vinagre, 1/2 colher de sal e 2 colheres de azeite. Deixei cozinhando até a pimenta ficar bem tenra. Aí sim triturei com um mixer, e voltei ao fogo com o restante dos ingredientes. Deixei cozinhando por mais uns 30 minutos.
Por que não cozinhei tudo de uma vez? Para facilitar o processo de trituração. É muito mais fácil moer a pimenta em uma pequena quantidade de líquido. Mas como tudo na cozinha, é uma questão de gosto. Você pode também triturar a pimenta ainda crua, só com um pouquinho de água (óleo não, pois a pimenta é aquosa e se dissolve melhor na água), e aí sim acrescentar o restante dos ingredientes e levar tudo junto ao fogo. Faça e nos conte!

domingo, 8 de maio de 2011

Homenagem às mães



Para mim, a sombra da árvore representa a grandeza do amor materno

Em homenagem à minha mãe, que me ensinou os primeiros passos na cozinha; e mais do que isso, me deu a liberdade necessária para desenvolver as minhas próprias receitas e técnicas;

à minha esposa, mãe e profissional zelosa, que me permite fazer experiências culinárias em nossa casa, e me incentiva a compartilhá-las com outras pessoas através deste blog;

à minha sogra, tão empenhada no cultivo das tradições familiares, e ao mesmo tempo antenada nas novidades e tendências atuais;

às minhas tias, com suas receitas de nomes difíceis e sabor inesquecível;

às minhas irmãs, primas, colegas,

a todas as mães leitoras deste blog, cozinheiras ou não,

Aqui vai um poema de autoria do médico e grande amigo Dr. Nilo Gardin:


AS MÃOS ENRUGADAS DE MINHA MÃE


De tudo que aprendi,
dos livros que li
e daquilo que vivi,
restaram-me poucas certezas.
Uma delas, talvez a mais clara,
é que jamais chegaria aonde estou
sem tuas mãos.
Silenciosamente elas foram criando rugas
na mesma proporção em que cuidavam de mim.
E essas manchas, que eles chamavam de senis,
acho que são as marcas do teu amor dedicado
gravado no tempo,
gravado na minha memória.
E de tanto vê-las,
ora me acariciando,
ora me repreendendo,
aprendi a amar a vida,
aquilo que é simples, mas imprescindível,
ritmico, mas constante,
como tuas mãos, incessantemente amorosas.
E meu coração também é uma parte tua,
tanto que às vezes tenho a impressão
de que eu não compreenderia a vida
sem o teu coração
e não saberia ver o mundo
sem os teus olhos.
Não sei quantas certezas te restou
mas uma posso assegurar:
o que eu deixar de bom no mundo,
com minhas mãos - que já começam a envelhecer,
saiba que terá também as tuas mãos,
tuas mãos amorosas e enrugadas.

Dr. Nilo Gardin

FELIZ DIA DAS MÃES!

08.05.2011

sexta-feira, 6 de maio de 2011

Geleia de Maçã com Pimenta


Continuando o post anterior "Conservas caseiras", vou apresentar um outro processo de conservação de alimentos, que é justamente o cozimento de frutas ou legumes com açúcar, de modo a reduzir o teor de água e aumentar a viscosidade.

Para quem passou mais de 30 anos acostumado a ler "Geléia", é estranho escrever "Geleia" sem acento... Mas fazer o quê? Com ou sem acento, essa receita é muito boa. Alguns dias antes da Páscoa, essa receita apareceu num desses programas de culinária da televisão. Minha sogra assistiu, anotou, e resolvemos fazer. Porém, reduzi a quantidade de açúcar, de 1 kg para 750 g. Minha mãe costumava fazer o mesmo com as geleias (ops, quase coloco acento de novo) de frutas. Fica menos doce, ou seja, realçando mais o sabor natural da fruta (ou da pimenta, aqui neste caso).
Essa questão da quantidade de açúcar é pessoal e até cultural. A indústria alimentícia leva isso muito em conta, por exemplo, ao lançar um mesmo produto em países diferentes.
A pimenta cortada em tirinhas bem finas tem um efeito decorativo (além de dar o sabor picante). O que dá volume à geleia é a polpa de maçã. Encontrei receitas parecidas por aí, usando abacaxi, pera, e chuchu (que um dia serão testadas e publicadas aqui).
Bom, vamos à receita:

6 maçãs (usei tipo gala, mas só por questão de disponibilidade. Teste outras variedades - Fuji, verde, argentina, etc. - e depois nos conte)
1/2 litro de água
4 pimentas dedo de moça, graúdas e maduras (bem vermelhas, mas não a ponto de desmanchar)
1/2 xícara de vinagre de vinho branco
Suco de 1 limão
750 g de açúcar refinado

Modo de fazer:
Lave, descasque e pique as maçãs em pedaços grandes. Enquanto estiver picando, jogue o suco de limão por cima (ele tem efeito antioxidante que evita o escurecimento). Leve para cozinhar na água, o tempo suficiente para ficarem macias (cerca de 20 minutos - pode depender do quanto estiverem maduras). Feito isso, passe pela peneira cuidadosamente. Você só vai aproveitar o caldo, rico em pectina (componente das frutas que age como espessante natural). O que fica na peneira pode ser consumido na hora, para não desperdiçar - ou então usado em outra receita.

Enquanto a maçã cozinha, prepare as pimentas: lave, corte em 4 no sentido do comprimento, retire toda a parte branca interna, e também as sementes. Passe rapidamente na água para tirar os resíduos da parte branca. Corte em tiras bem pequenas (cerca de 2 x 0,5 cm). (Obs. após cortar a pimenta, lave muito bem as mãos. Quem avisa amigo é!)
Leve ao fogo, junto com o caldo peneirado de maçã(pode ser na mesma panela onde cozinhou as maçãs, mas lave antes para retirar os restos de polpa). Acrescente o vinagre e o açúcar. Deixe ferver até pegar consistência, mexendo de vez em quando para não grudar no fundo da panela. Para saber quando está no ponto, faça o seguinte teste (que serve para qualquer geleia): despeje uma colherada da geleia ainda quente sobre um pires refratário (de vidro, porcelana, etc.). Coloque imediatamente no congelador para resfriar. Se quando fria a mistura deslizar lentamente pelo prato, está pronto. Mais líquida do que isso, vai deslizar pelo prato e não vai pegar na comida; mais consistente, vai ficar em ponto de corte (o que também não é má ideia - dá pra colocar num tabuleiro, cortar em pedaços depois de frio e servir em piqueniques, saladas...). O sabor levemente agridoce dessa geleia vai bem com carnes.



No mesmo dia, eu estava mexendo com chocolate, e experimentei um pedaço junto com essa geleia. Acredite: ficou muito bom. Mas imagino que para usar em pratos doces, fica melhor usar vinho branco em vez de vinagre.
Se quiser conservar por mais tempo, aprenda a técnica da esterilização e vedação de vidros - é um processo bem simples que dá pra fazer em casa. Mas garanto que ninguém vai aguentar a expectativa de ter que esperar o próximo churrasco. Você vai querer comer essa geleia com pão, queijo, requeijão, com torrada, na salada...

terça-feira, 3 de maio de 2011

Conservas caseiras

Há muito tempo que o ser humano aprendeu a conservar os alimentos para enfrentar as épocas de escassez. Certamente esse aprendizado ocorreu na prática, através da observação e da experiência. Dois métodos muito antigos, que praticamente imitam a natureza – e por isso mesmo tão antigos que se perdem no tempo – são a secagem e a fermentação.

Secagem:
Um dia alguém percebeu que as frutas secavam naturalmente ao sol, e mesmo assim podiam ser consumidas. Isso aconteceu ao mesmo tempo, em vários povos antigos.



Uvas. Para não desperdiçá-las, alguém aprendeu a secar.


No Oriente Médio, as frutas - ameixas, uvas, damascos, tâmaras - eram secas para servir de provisão durante as caravanas, e para os longos invernos do deserto. Os indígenas do México e Estados Unidos cortavam a abóbora em lâminas (provavelmente com ajuda de uma pedra afiada - não sei se eles fundiam metais) e colocavam para secar ao sol. Depois era só reidratar. Os incas colocavam as batatas frescas na neve, depois no sol, depois novamente na neve, no sol e assim sucessivamente até transformá-la em farinha. Ao contrário da batata fresca que dura algumas semanas, esta farinha podia ser transportada por grandes distâncias. Esse misto de secagem e congelamento é muito parecido com a liofilização, um processo muito usado hoje em dia para a conservação de legumes – aquela cenoura da sopa pronta, por exemplo, é liofilizada.
Conta-se que os vikings, grandes pescadores dos mares gelados do hemisfério norte (Noruega, Dinamarca, Suécia etc.) já secavam o bacalhau nas pedras da praia que ficavam quentes com a radiação solar. Depois, observaram que a adição de sal acelerava o processo. Os portugueses aprimoraram a técnica de secagem do bacalhau, se tornando exportadores do produto (veja aqui meu outro artigo sobre esse peixe).


Bacalhau secando ao ar livre. Foto: Wikimedia.


A carne seca (ou charque) sempre foi um produto muito importante para a economia de alguns países da América do Sul, entre eles o Brasil, Argentina, Uruguai – especialmente antes da invenção da geladeira. A palavra charque tem origem na língua quéchua, falada nos Andes, onde ainda hoje existe o “charqui” de carne de lhama.

Fermentação:
As bebidas fermentadas (vinho, cerveja) também têm uma história parecida. Alguém observou que as frutas ficavam azedas com o tempo, experimentou, e... gostou! O vinho de uva já era citado no Antigo Testamento e em antigos escritos de várias civilizações. A cerveja é derivada da fermentação de cereais.
É importante ressaltar que fermentação é um processo totalmente diferente do apodrecimento, embora ambos se devam à ação de microrganismos. No apodrecimento o alimento se decompõe, liberando cheiro desagradável e se tornando impróprio para consumo. É o ciclo da vida, onde o alimento volta para a terra gerando adubo. A fermentação, por sua vez, se assemelha muito mais a um processo de transformação, de renovação, de modo que o produto final ainda tem características que o aproximam do alimento. A um certo momento, o metabolismo do microorganismo é reduzido, a fermentação é interrompida e o produto se conserva assim por anos.
Os bons vinhos são reconhecidos justamente pela multiplicidade de aromas e outras substâncias que não existiam originalmente no suco da uva.



(Pela poeira da garrafa, dá pra se ter uma ideia de quanto tempo esse vinho está guardado!!)


Já ouviu falar em “vinhos com aroma de ameixa”? Não quer dizer que ele contém ameixa, mas sim que o aroma surgiu da fermentação do açúcar. As moléculas grandes (sacarose, proteínas) se quebram em suas unidades menores (respectivamente: frutose, glicose e aminoácidos). A fermentação do açúcar em laboratório já é utilizada para obter aromas naturais para a indústria alimentícia. Tanto no vinho como na cerveja, o responsável pela fermentação é um tipo de fungo, Saccharomyces cerevisiae.



Legumes e verduras guardados por algum tempo em recipientes fechados deram origem ao chucrute e ao picles. A fermentação do repolho é muito antiga, surgiu provavelmente no interior da Ásia, de onde foi levada para a Europa e se tornou um prato típico alemão. Uma curiosidade: “chucrute” é uma palavra francesa – o nome alemão é Sauerkraut, que significa literalmente verdura azeda. O nome “pickles” é inglês e vem do fato dos legumes serem picados (pick) em pequenos pedaços. O picles atual não é mais fermentado, mas sim uma mistura de vinagre, especiarias e conservantes químicos. A fermentação natural envolve bactérias lácticas (que liberam ácido lático), e é um processo muito simples de se fazer em casa.



Foto: repolho (Brassica oleracea)
A placa não está errada! Está em castelhano: "Repollo"

Fonte: http://capl.washjeff.edu/7/m/1095.jpg

E onde o farmacêutico entra nessa história? Pois bem, o curso de Farmácia tem no currículo uma disciplina chamada Tecnologia de Fermentações, que é justamente o estudo dos processos fermentativos. Havia até um professor da USP que fazia vinagre e outras conservas, que eram comercializadas na própria universidade (vou verificar se ele ainda faz isso e depois conto). Temos também a disciplina de Física Industrial, onde estudamos processos de secagem, congelamento, liofilização (que é um misto de secagem e congelamento) e outros processos. Bom, na universidade o curso tinha como objetivo preparar o aluno para a indústria. Mas todos aqueles conhecimentos podem muito bem ser aplicados na culinária do cotidiano. É por isso que resolvi escrever esta série de posts sobre conservas. Aguarde!!

sábado, 30 de abril de 2011

Um país de botânicos - continuação


Pé de anis florido. Foto: Wikimedia.




Num post anterior, "Um país de botânicos", citei alguns exemplos de equívoco entre nomes de plantas, como a erva doce, a unha de gato e o hibisco. Portanto, ao indicar plantas medicinais, trocar o nome pode ser perigoso.
As palavras – incluindo os nomes das coisas - migram junto com as pessoas. Porém nem sempre o sentido original permanece o mesmo. Um exemplo: os imigrantes italianos que vieram para o Brasil conheciam uma planta medicinal, chamada Arnica, muito comum nas montanhas do Velho Continente. Essa planta, que os botânicos chamam de Arnica montana L., era usada desde tempos imemoriais para o tratamento de hematomas, distúrbios musculares, entre outros. Só que ela não existia no Brasil. Aqui chegando, esses imigrantes encontraram outra planta muito parecida que era usada pelos brasileiros com a mesma indicação. O que aconteceu? O nome Arnica foi “emprestado” a essa outra planta, que pertence ao gênero botânico Lychnophora e à mesma família da primeira, as Compostas. O nome Arnica também foi emprestado a outra espécie da mesma família, a Solidago microglossa, entre outras espécies nacionais.
O mesmo aconteceu com o nome erva-doce, que dá nome a duas espécies diferentes da mesma família: Pimpinella anisum (anis) e Foeniculum vulgare (funcho). Por ter cheiro semelhante, o nome “anis” foi emprestado ao anis-estrelado (Illicium verum, Illicium anisatum) que é de outra família botânica. (Caro leitor: desculpe se uso muito esse exemplo da erva-doce, mas é que ele é muito típico...).

O nome popular é baseado nas impressões sensoriais: o aspecto visual, o formato das folhas, flores, frutos; a textura; o cheiro, sabor, acidez... Os nomes das plantas vinham dessas características. Assim, “arnica” vem do grego e significa “pele de cordeiro” (por causa da textura da sua folha). Também podiam ser associadas a nomes de lugares. Da localidade germânica “Mattium”, que era uma colônia romana, veio o nome “matiana”, que resultou em “maçã”. Com as navegações e descobrimentos, o número de plantas crescia assustadoramente, e o nome popular com base na aparência já não era mais suficiente para evitar confusões.



No século XVIII, o botânico sueco Linnaeus (para nós, Lineu) criou um sistema eficaz de classificação dos seres vivos. Ele se norteou por detalhes mais sutis, muitos dos quais passam despercebidos pela maioria das pessoas. Quantas pétalas tem a flor? Qual a posição da pétala em relação ao cálice? A semente fica dentro ou fora da fruta? Quantas nervuras tem a folha? A partir daí ele começou a agrupar as plantas em gêneros e famílias botânicas. Importante: nem sempre plantas da mesma família têm o mesmo aspecto visual. Por exemplo: a grama e o bambu são da família das Gramíneas, porém uma tem alguns centímetros enquanto a outra tem vários metros de altura.
Em textos botânicos "de verdade", como artigos de revistas científicas, a nomenclatura das plantas segue uma ordem rígida para evitar confusão. Além do nome, é preciso especificar o nome do autor - através de iniciais. Assim, o correto seria: Arnica montana L., onde L indica Lineu, o autor que deu esse nome. Centella asiatica (L.) Urban significa que esse tal de Urban revisou o nome dado por Lineu e propôs um nome mais atual; por isso o L está entre parênteses.
Nota: atualmente, os botânicos já consideram o sistema de Lineu desatualizado, principalmente devido à evolução da genética que possibilitou a identificação das plantas com mais precisão. Os nomes das famílias já mudaram (por exemplo, a família Gramíneas citada acima virou Poaceae). Novos sistemas de classificação estão sendo propostos. Mas, calma: neste blog, tentarei usar o nome mais familiar possível para poupar o leitor.

quarta-feira, 27 de abril de 2011

Um país de botânicos

Dizem que o Brasil é um país de médicos. Todo brasileiro tem o tratamento certo para aquela doença "cabeluda", uma dieta milagrosa, uma dica de saúde, etc. para compartilhar com os amigos.
E mais ainda: somos um país de botânicos. Sim! Acho que em nenhum outro país do mundo as pessoas conseguem identificar uma planta assim à primeira vista. Basta ir a um jardim e logo as pessoas fazem questão de mostrar seu conhecimento.
E de plantas medicinais então? Basta sair a manchete “Chá de hibisco emagrece”, e pronto: lá vão as pessoas pegar flor do hibisco de jardim pra fazer chá. Afinal “é a mesma planta”, certo?. Unha de gato pra reumatismo? “Tem no muro lá de casa, depois te arrumo uma muda!” Anis estrelado? “É caro! Usa erva-doce que é a mesma coisa”.


Anis (Pimpinella anisum). Foto: Wikimedia


Nada contra essa boa vontade em ajudar o próximo, típica do brasileiro. Certa vez, numa competição de escalada no Himalaia, a equipe portuguesa se acidentou e caiu na neve. Todas as equipes viram e passaram direto. Exceto a equipe brasileira. Perderam a corrida, mas não conseguiram passar pelo acidente sem ajudar as vítimas. Em momentos como esse, de vida ou morte, a ação é mais importante do que o conhecimento.
Mas, ao indicar plantas medicinais de forma equivocada, será que estamos mesmo ajudando? Será que é assim tão simples dar nome aos bois (quero dizer, às plantas)?
Depende. Numa comunidade pequena, onde todo mundo conhece a planta pelo mesmo nome por várias gerações, pode ser. Num passado muito distante, era assim. Ainda é assim nas aldeias indígenas, nos remanescentes de quilombos, nas vilas caiçaras. Mas a partir do momento que o ser humano saiu da sua “aldeia” para visitar os vizinhos e trocar mercadorias, aí começou a confusão. Ou melhor, a globalização.
As palavras – incluindo os nomes das coisas - migram junto com as pessoas. Porém nem sempre o sentido original permanece o mesmo. E aí, com frequência surgem alguns equívocos, como os citados acima. Unha de gato de jardim x unha de gato amazônica; hibisco de jardim x Hibiscus sabdariffa (roselle, ou vinagreira); anis-estrelado x anis, etc.


Hibiscus sabdariffa. Foto: Wikimedia.

Por isso, antes de indicar plantas medicinais para conhecidos, procure estudar melhor o assunto. Se você tem conhecimento, não deixe de compartilhar. Mas se você não sabe, não tenha vergonha de assumir que não sabe e diga que vai pesquisar. Todos saem ganhando.

terça-feira, 26 de abril de 2011

Farmacêuticos na Cozinha - Continuação

Com apenas um mês do seu lançamento "oficial", o blog já é um sucesso! Graças às comunidades de farmacêuticos do Linkedin, como do CRF e da FCF-USP, recebi visitas de colegas até do México e da Espanha. Também recebi um grande número de visitas através da indicação de amigos, familiares, ferramentas de busca, além de sites de culinária e gastronomia.
Continuando o post anterior onde explico o porquê do nome farmacêutico na cozinha: cada vez mais me convenço de que esse profissional tem "um pé na cozinha". Tenho vários colegas de trabalho e de graduação, que assim como eu, gostam de testar receitas novas, e principalmente, compartilhar os resultados com amigos e familiares.
Tal como nas áreas da saúde, cada um tem sua "especialidade": tenho colegas que preferem fazer massas; outros, carnes; outro, doces; e por aí vai. Mas uma coisa todos têm em comum: o cuidado na escolha dos ingredientes e no preparo da receita. E o resultado, claro, é um sucesso.
Essa troca de experiências com os colegas tem me motivado muito! Recebi relatos de colegas que se afastaram das panelas por motivos diversos - mas que agora estão conseguindo retomar esse lado.
A ideia deste blog é justamente essa: ser um ponto de ligação entre a farmácia e a culinária, estas duas artes tão antigas e tão vitais à manutenção da saúde. E com um diferencial: trazer informações com seriedade e responsabilidade.

terça-feira, 19 de abril de 2011

Tomate ecológico e saudável

O tomate é uma das culturas mais sensíveis a pragas: fungos, bactérias, insetos... E por isso mesmo é uma lavoura que recebe uma grande carga de agrotóxicos.

O ser humano tende a enxergar o inseto como “vilão” que rouba o seu alimento. Mas é uma simples questão de sobrevivência! O inseto precisa se alimentar. Ele passa por uma plantação de tomate, vê aquele colorido todo, e... nhac! Nós faríamos o mesmo, no lugar dele, não? Pois bem, todos os seres vivos precisam comer. Então de quem é a prioridade?




Tomate verde com larvas. Foto: Wikimedia.

A planta não tem rabo para abanar, como as vacas fazem para espantar as moscas. Não tem spray repelente, como os humanos. Muito menos aquelas raquetes elétricas de fritar mosquito... Mas então, como a planta espanta os insetos?

A natureza possui seus próprios meios para manter equilíbrio entre as espécies. As plantas não são tão quietinhas como parecem! Elas se comunicam com os outros seres vivos através de substâncias: aromas, cores, hormônios... Quando um inseto ataca uma folha, imediatamente a planta começa a produzir substâncias repelentes. Isso já é muito bem conhecido e documentado, e tem o nome de efeito alelopático (não confunda com alopático, que é outra coisa).




Flor do tomateiro. Foto: Wikimedia.

A convivência inseto-planta é normal, e até certo ponto, necessária. É graças aos insetos que as plantas se multiplicam. O problema é quando a planta não consegue controlar a infestação. O modelo agrícola atual, baseado na monocultura - grandes áreas, para produzir grandes quantidades de uma mesma espécie – lança mão do inseticida para eliminar os invasores.

Porém, monoculturas não existem na natureza. E o que antes parecia esperteza do ser humano, agora está se mostrando ser um verdadeiro “tiro no pé”. As plantas tornam-se resistentes aos defensivos. Cada vez é preciso mais inseticida, para obter o mesmo efeito. E com isso poluímos os rios, a água potável... Recentemente saiu na mídia o caso de Lucas do Rio Verde, um município do Mato Grosso (um dos maiores produtores de soja), em que apareceu resíduo de agrotóxico no leite materno. Além de um grave problema ambiental, isso é uma questão de saúde pública.

Uma pesquisa da USP mostrou que o cultivo agroecológico do tomate ajuda a preservar o meio ambiente e reduz custos em até 84%. De que forma? Preservando porções de mata próximo à plantação de tomate. O engenheiro agrônomo Fábio Leonardo Tomas é autor da dissertação de mestrado: “A influência da biodiversidade florestal na ocorrência de insetos-praga e doenças em cultivos de tomate no município de Apiaí-SP”, da Escola Superior de Agricultura Luiz de Queiroz (Esalq) da USP, em Piracicaba. A pesquisa foi realizada com produtores da região Sudeste do estado de São Paulo (Vale do Ribeira), que possui a maior produção de tomate de mesa do País.




Veja a tabela comparativa (fonte: Agência USP Notícias).

O método consiste em espalhar cultivos em clareiras de 25×25 metros abertas na mata a cada 300 metros de floresta. O modelo se baseia nas “Ilhas de Alta Produtividade”, método utilizado por seu orientador Paulo Kageyama no plantio de seringueiras no Acre. Como se sabe, as seringueiras também se desenvolvem melhor em meio à mata. Experiências de plantio da seringueira em monoculturas, como a de Henry Ford há quase cem anos, não deram certo, pois a árvore se torna muito suscetível a pragas.

Se lembrarmos que o tomate é nativo da América do Sul, o cultivo no meio da mata deve ser parecido com o método empregado pelos índios. Ou seja, estamos comprovando cientificamente o que eles já sabiam na prática.
Agora, se o cultivo agroecológico reduziu os custos com agrotóxico, então por que o tomate orgânico ainda é tão caro? Esperamos que experimentos como esse ajudem a reduzir o custo do alimento orgânico e aumentar o seu consumo.