Desde meados de 2009, circulam na Internet vários e-mails afirmando que o chá de erva doce ou de anis estrelado é eficaz contra a gripe H1N1.
Segundo esses e-mails, o medicamento (que começa com T e acaba com U) seria “extraído do anis-estrelado”. E o mesmo e-mail afirma categoricamente que, na falta desse medicamento, podemos tomar chá do próprio anis-estrelado. E mais: na falta do anis-estrelado, podemos tomar o chá de erva-doce mesmo!
Anis estrelado (do gênero Illicium). Um ingrediente importante da cozinha chinesa e vietnamita. Foto: Fotopedia
(Quero deixar claro que NÃO tenho nenhuma ligação com o laboratório fabricante do medicamento em questão. Mas essa história serve de gancho para fazer alguns comentários).
É verdade que esse laboratório parte do anis estrelado para produzir o medicamento. Agora, afirmar que um substitui o outro, já é uma longa história. Da planta ao comprimido existe um longo caminho. O comprimido final não tem praticamente nada a ver com a planta de partida. Mas então, pra que serve o extrato do anis-estrelado?
A indústria farmacêutica moderna nasceu com a síntese de substâncias que não existem na natureza. É uma forma de garantir exclusividade, sair na frente dos concorrentes. Em muitos casos, a planta fornece a base, o ponto de partida, para a indústria produzir em laboratório a substância que entra no medicamento final.
Para isso é preciso explicar o que é síntese e transformação química. Dá pra explicar muita coisa de química com exemplos que vêm da cozinha! Se você colocar açúcar na sua xícara de chá, e misturar com a colher, o açúcar se dissolve, mas ele ainda está lá. É possível “resgatar” esse açúcar de alguma forma. Por exemplo, se você aquecer o chá a água vai evaporar e ele vai se concentrar. Agora, se você aquecer numa panela, direto no fogo? Ele vira caramelo e queima. Até muda de cor. Ou seja, você tem ali uma substância nova.
Ou seja, voltando ao medicamento para gripe H1N1, o seu princípio ativo é sintetizado em laboratório, não está presente na planta. Comparando grosseiramente: você colocaria caldo de cana no tanque do seu carro, só porque tem “o mesmo princípio ativo do álcool”? Você dispensaria o seu café solúvel, para tomar chá da folha de café? Afinal, vêm da mesma planta, certo?
E além disso, tem a questão da concentração. Mesmo se a substância ativa do medicamento estivesse na planta, seria em quantidade muito pequena, e teríamos que tomar uns trinta litros do chá por dia.
(Atenção: não estou dizendo que o chá não funciona, nem que o tal medicamento é a única solução; apenas estou dizendo que são coisas totalmente diferentes!)
Além dessa questão da transformação química, tem também a questão da espécie botânica, que de tão complexa merece um novo post.

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